lost in poa
eu não sei qual é a atração irremediável que as pessoas perdidas nessa cidade têm por mim. Nos últimos dois dias, pelo menos quatro figuras, de carro ou à pé, interrompem o meu passo para perguntar como devem chegar no seu destino.
sempre respondo com paciência, mesmo quando não sei exatamente onde. E mesmo quando estou defronte de alguns casos bizarros.
certo dia de verão, por exemplo, estou chegando no Cremers quando me chama um senhor de meia-idade. O Cremers fica perto da Fabico, na Princesa Isabel, quase esquina com a São Luiz, a continuação da Ramiro depois da Ipiranga. Bairro Santana, portanto.
O senhor simpático me pergunta: - Moço, como é que eu faço para chegar na ASSIS BRASIL?
Dei uma risada. Alta.
Respondi. - Olha, digamos que tu tá bem longe…
O senhor me responde imediatamente: - Ah não, não é Assis Brasil…que rua é aquela movimentada ali?
- A Ipiranga.
- Ah, então é lá mesmo. Obrigado, hein!
- Mas se o senhor quiser chegar na Assis Brasil, pegue o T1 e vá até o final da linha.
- Ah sim, obrigado!
Tive a impressão que ele ficou bastante constrangido com a minha risada, viu a primeira rua que poderia ser parecida com a Assis Brasil e deu uma desculpa, para não parecer assim TÃO perdido. Tudo bem, acontece nas melhores famílias.
Teve também o caso da pessoa que havia recém chegado de uma cidade do Interior (Farroupilha, suponho) e me abordou na esquina da Garibaldi com a Farrapos, defronte ao posto de Gasolina:
- Moço, como eu faço pra chegar na USINA DO GASÔMETRO?
Até fazia sentido, a moça era do interior, poderia vir da Rodoviária, etc. etc.
- Olha, tu pega um ônibus…
- Dá pra ir a pé?
- Até dá…
- É que eu tinha que chegar lá à uma hora…
Eram 12h35.
- Bom, tu não vai conseguir chegar nesse horário indo a pé. Pega um ônibus pro Centro, sei lá.
- Mas como é que eu faço lá no Centro?
- É, talvez seja pior pra ti ir pro Centro. Pega um táxi, senão tu vai te atrasar.
- Onde eu pego um táxi?
Quem conhece a Garibaldi sabe que passam pelo menos dois táxis por minuto ali. Domingo diminui um pouco o movimento, mas era verão e praticamente só táxis subiam a rua. Mesmo assim, ela não sabia onde pegar um. Não tive dúvidas - eu mesmo chamei um táxi para ela e indiquei o caminho para o motorista.
- Usina do Gasômetro, de repente pega a Mauá e vai reto.
- Muito obrigado, moço.
O curioso é que esse tipo de ação apenas acarreta outras, e mais outras. Os perdidos até me interrompem quando falo no telefone. Dia desses discutia uma pauta com a Aline, para o telejornal, e uma moça me pergunta como faz pra chegar na Osvaldo Aranha, também defronte ao Cremers. Parei a ligação para mostrar-lhe onde fica a parada.
Não encontrei explicação plausível para a torrente de pessoas que me vêem como bússola. Pensei no fato de ter sido um prodígio em geografia quando criança, mas isso jamais estaria estampado na minha cara. Talvez exista uma Sociedade dos Perdidos Anônimos, que se reúna todo sábado para discutir como se achar no Portinho.
- Olha só, sabe aquele guri de cabelo crespo e óculos que te botou num táxi outro dia?
- Que tem?
- Encontrei ele hoje, estava na Zona Leste e queria chegar na Assis Brasil. Não foi muito simpático
- Ah, mas não é sempre, outro dia a Doralice encontrou ele e ele chegou a interromper a ligação para dizer onde ficava a parada.
- É mesmo? Bom, então vamos deixar ele entre os primeiros do nosso cadastro.
Imagino a minha foto num painel, entre as pessoas mais solícitas da cidade. Talvez alguma velhinha corredora ou uma bixo de turismo na Ulbra em primeiro lugar. Até por que eu tenho cara de brabo.

Comé que tu conhece tão bem a Garibladi, hein, safadinho?
Comment by Prestes — March 20, 2007 @ 10:01 pm
talvez por que minha namorada mora nessa rua…
Comment by Luís Felipe — March 21, 2007 @ 12:11 am
tu tem cara de brabo. ah, tem.
Comment by marcia — March 21, 2007 @ 3:26 am
No meu caso, costumam ser os bêbados e malucos querendo contar as desventuras de suas vidas. Como vê, podia ser pior. Rende um contos, pelo menos.
Comment by Natusch — March 21, 2007 @ 5:43 am
comentando teu comentário – bastante elucidativo, por sinal – no meu blog: realmente, lembro-me do teu post sobre a música hodierna.
tua avaliação sobre o tema é muito boa, mas quero – não sei se vou conseguir, enfim – ir além dessa visão das ‘rotinas produtivas’. a questão técnica é, certamente, muito importante, mas quero tentar descobrir se há um motivo maior por trás disso.
eu falei sobre mudança no modo como as pessoas vivenciam os sentimentos na atualidade; agora me veio à mente que eu poderia encontrar uma explicação pra isso na obra do zygmunt bauman, em especial ‘amor líquido’ e ‘modernidade líquida’. por enquanto, falta-me tempo [e saco] pra ler isso.
abraço, magrão; e obrigado pelos comentários sempre pertinentes e instigantes. até agora estou pensando na questão da liturgia, e é possível que saia um post sobre isso.
Comment by Muniz — March 23, 2007 @ 5:15 am
Aqui na Alemanha também me perguntam bastante aonde chegar nos lugares (aliás, me perguntaram como chegar numa determinada rua no meu segundo dia aqui. Por acaso era a rua que eu moro).
A situação mais engraçada dessas foi em Hannover. Eu estava seguindo o famoso “Red Thread”, uma linha vermelha que cobre alguns km de atrações turísticas, e um casal estrangeiro me parou para perguntar (em inglês) como chegava na estação de trem… tentei explicar no mapa, mas eles não entendiam… então mandei o casal seguir a tal linha vermelha. Provavelmente eles me odeiam por os ter feito caminhar mais, mas era o jeito mais seguro. Até porque encontrar gente na rua que fale inglês não é exatamente trivial.
[]s
Comment by Coster — March 29, 2007 @ 6:35 pm
Aliás, vendo agora a imagem do topo do seu blog, percebi que é uma estação de trem daqui da Alemanha (o Restmüll e a cadeira característica entregou
Comment by Coster — March 29, 2007 @ 6:37 pm