to the chaos and back

July 24, 2007

leituras

Filed under: salada de frutas

não recebi o meme (ah, esses novos termos) sobre as cinco leituras que estão mais presentes na minha vida, até por que não recebo essas coisas e meus amigos não devem conhecer sequer o termo. Mas li no blog da Cris Simon e achei divertido, tanto que resolvi fazer o mesmo. Vou usar exatamente o mesmo significado - leituras que estão mais presentes.

 O livro mais presente na atualidade só poderia ser o que estou lendo. Rádio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado, de Matthew Collin, é um relato que conta a história de sobrevivência da rádio sérvia B92 durante o mandato de Milosevic. A história da Iugoslávia sempre me fascinou, desde o colégio, pois não conseguia entender como povos tão diferentes, que conviveram juntos por 80 anos, começaram a brigar de repente - e no meio da "civilizada" Europa. Ainda no primeiro ano do segundo grau fui inserido no mundo de Milosevic, do pan-eslavismo, do nacionalismo sérvio e na indústria de paranóia que envolve uma guerra. A rádio-rock-Alice* B92 estava no meio do furacão, com uma proposta de comunicação revolucionária, baseada no krautrock e nas idéias de Guattari, abrindo com pé de cabra a cabeça dos jovens iugoslavos. Exatamente o oposto do que prega uma ditadura. Cheguei nessa segunda-feira ao posfácio. O livro é evidentemente baseado na versão anti-Milosevic da história, o chefe da empresa Veran Matic parece de fato um herói incontestável. Não busquei a versão do ditador na história. Fiquei contente com o poder e a gana que ilustra o jornalismo idealista, tão necessário em momentos de crise e tão ausente nas nossas vidas mundanas.

Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano, é totalmente indispensável para quem gosta de prosa poética e, claro, de futebol. Galeano é um excelente mentiroso, tanto que vários dos fatos relatados na obra têm veracidade duvidosa. Quem se importa? Dane-se o culto do fato, como diria Nélson Rodrigues. Eu adoraria ter escrito esta obra - como não tenho tal genialidade, me contento em exercitar a poesia na cultura do desporto, através da coluna colorada semanal no FinalSports.

Para quem não sabe, todo final de semana falo sobre o Inter no sítio. Mas eu não chego nem perto do uruguaio. Quem se aproxima dele realmente é o Emanuel Neves, que assina Futebol Além do Olhar no mesmo portal. O texto desta terça feira, intitulado "Essa é a grande verdade", é uma pérola da beleza e da poesia que envolve o futebol. Emanuel se tornou dolorosamente imparcial, logo ele que é um colorado de quatro costados e escreveu delícias vermelhas durante a nossa Libertadores. Fazer o quê. Galeano é torcedor do Nacional, mas confessa no início do livro que um dos times mais encantadores que viu foi o Peñarol de Abadie e Spencer. Rival absoluto. A poesia não tem rivais, um dia vou aprender isso.

 

O Senhor Embaixador, de Érico Veríssimo, é o melhor romance sobre política que eu já li. Não li muitos, confesso. Gabriel Heliodoro é um caudilho clássico, daqueles mandatários de repúblicas de bananas que ilustram aos montes o nosso congresso. É nomeado embaixador em Washington DC. Tem como secretário Pablo Ortega, funcionário público que acaba amigo do ditador embora seja inimigo do regime. Quando eclode a guerrilha comunista em Sacramento, Gabiliodoro fica do lado do regime e Pablo Ortega, o burguês intelectual esquerdista, assume posição contrária. Um camaleão do poder; outro, idealista anti-ditatorial. A ditadura comunista é o único fato datado do livro; todos os outros são vistos a todo momento na política das republiquetas. Um exemplo clássico foi a ode que Veja fez a Antônio Carlos Magalhães quando da sua morte - o maior dos camaleões do poder, derrubado por matérias da mesma Veja. Nojento? Sim, e também político.

Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce, foi o primeiro livro que li com experiências linguísticas bem ousadas. Isso que o livro foi concebido 69 anos antes do meu nascimento - comecei a lê-lo 86 anos depois. Também foi um dos livros que li na versão original, desta forma curti bem mais o experimentalismo de Joyce. Ele narra o início da vida de Stephen Dedalus, desde a sua primeira infância até a adolescência. A linguagem da narrativa evolui conforme a evolução do personagem, ou seja, o livro é infantil quando fala da infância de Dedalus, adolescente quando fala da sua adolescência. Genial. Durante muitos anos eu quis comprar a versão em português, mas a tradução de José Geraldo Vieira era um completo desastre. Este ano, ganhei o livro com nova tradução de presente da minha cunhada, Júlia. É definitivamente uma obra para guardar às novas gerações.

Por fim, O Xangô de Baker Street, de Jô Soares. Falem o que quiserem, mas este livro é muito engraçado. Aliás, Jô é um mestre do humor brasileiro, que faz muita falta em tempos de Cassetas e Tons Cavalcantes. Bem que poderia retomar um pouco da sua maestria ao invés de encher o nosso saco com entrevistas modorrentas, mas se até Mel Brooks largou o humor, por que não ele? A história, vocês conhecem: Sherlock Holmes visita o Brasil para solucionar o caso de um violino Stradivarius desaparecido. No Brasil da realeza e do século XIX, os ingleses levam um choque cultural daqueles. Este livro também me marcou por outro fato: foi a primeira vez que vi meu pai chorar de rir, a ponto de perder o fôlego. Isso aconteceu quando ele lia a cena em que o empolado assistente Watson encarna uma pomba-gira.

Em respeito à minha memória, nunca vi o filme. Mas li o livro duas vezes - a última leitura data de cinco anos. Tenho que recuperá-lo para colocar na estante nova que temos em casa.

 

Sem nenhuma pretensão, passo a tarefa de descrever as cinco leituras mais marcantes para a Renata, a Cecília, a Emily, o Rodrigo e o Igor Natusch.

4 Comments »

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  1. yay, q emoção! já estou pensando!
    bjss

    Comment by ce — July 25, 2007 @ 7:40 pm

  2. Cara, se tu quer uma dica de um livro que vai MUDAR a tua vida, procura “O terceiro tira”, de Flann O’Brien. Tem em qualquer livraria em versão pocket.

    Garanto, é coisa BOA.

    Comment by Francisco Luz — July 27, 2007 @ 2:54 am

  3. O livro que mudou a MINHA vida foi 1968 - o ano que não terminou, do Zuenir.

    Comment by Bruno — July 27, 2007 @ 3:26 pm

  4. Fico agradecido pelo gentil convite, e devo dizer que o aceitei. Podes ver o resultado das minhas dúvidas no meu blog :)

    Comment by Natusch — July 28, 2007 @ 7:16 am

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