to the chaos and back

October 15, 2007

osso duro de roer

Filed under: tribuna popular

Finalmente assisti o Tropa de Elite. Isso faz com que eu não seja nem o primeiro, nem o último ser humano a comentar sobre o filme. Vocês vão ler as coisas mais variadas sobre o tema, de Diogo Mainardi a Marcos Rolim, talvez com mais propriedade. Ainda não achei nenhuma opinião que reproduza totalmente o que eu penso.

Em primeiro lugar: não parece muito estranho um filme que traz uma louvação ao cumprimento da lei (representada na ação violenta dos policiais) ser o maior produto da contravenção na história do país? Nunca um filme foi tão pirateado e, por consequência, visto.

A partir disso, a discussão toma focos variados. A capa da Carta Capital na semana passada é provocativa - "O novo herói nacional" - e a capa da Veja desta semana não é diferente, fazendo uma ode à violência da polícia. Li as duas matérias, uma é de Ana Paula Costa e a outra é de Marcelo Carneiro. A objetividade panfletária da Veja é comovente.

capa: "maior sucesso do cinema brasileiro".

título da reportagem especial: "a realidade, só a realidade"

 ao lado, pesquisa encomendada: "72% das pessoas dizem que os traficantes são tratados como merecem"

 duas páginas depois, Isabela Boscov assina: "abaixo a mitologia da bandidagem". Frase que resume o texto: "também o cinema brasileiro fechou com os bandidos". Outra frase: "o cinema brasileiro precisa de uma nova sociologia". Fala da contravenção sim, em meia página, com foto grande e pesquisa encomendada do lado.

página seguinte: "máquina letal conta o crime". O Bope é uma das "melhores tropas do mundo", segundo a reportagem. Assinada por Ronaldo Soares.

logo depois - cuidado para não vomitar - um artigo do genial Reinaldo Azevedo: "Capitão Nascimento bate no bonde do Foucault". Esse artigo eu não li, confesso. Comi pouco durante o dia. O artigo ocupa duas páginas. Só li uma frase. "Pouco me importa o que pensam Padilha e Moura (diretor e protagonista do filme). O que interessa é o filme". É claro que Diogo Mainardi também deu o seu pitaco sobre a obra.

bueno. Não vou comparar agora com a cobertura dada por Carta Capital, que é bem mais dispersa e mesmo na reportagem de capa, não pretende ser panfletária como a Veja. Entretanto, é bem possível observar a diferença de tratamento dada por esquerda e direita, na essência primária do filme. A esquerda demonstra constrangimento diante do caráter ofensivo do filme, que desce o cacete em ONGs e passeatas. A direita demonstra euforia por ver duas horas de tolerância zero. e acredita estar aí a solução para os problemas do país.

 Eu acho que um filme não pode nunca tornar-se a referência moral da sociedade, a não ser que ela esteja doente e precisando se agarrar em qualquer referência moral. De toda forma, o capitão Nascimento não seria nunca a minha referência moral. É um cara desequilibrado, atormentado, que por ser extremamente dedicado à sua função social (por que não dizer, civilizatória) tem a vida pessoal atirada no lixo. Além do mais, Nascimento é um dos protagonistas de uma guerra. Na guerra, Pizarro abria ventres maternos e matava fetos em nome de Deus. Na guerra, as demonstrações de poder vêm com bombas atômicas que matam 500 mil pessoas e dilaceram o futuro de outras tantas. Na guerra, toda moral é relativa e a coerência não existe. Assim como não é coerente aplaudir a atuação da lei depois de comprar um DVD pirata - daí a minha idéia de que foi uma estratégia genial de marketing, embora todo mundo negue isso.

Aspectos fundamentais para ser analisados no filme:

   - O sistema viciado. Nascimento, o narrador, fala o tempo todo sobre o sistema, como se fosse uma entidade separada da sociedade. É uma descrição muito bem construída da roda viva de imoralidades cometidas pela própria polícia, e que têm uma catarse nas "operações especiais". O sistema é medíocre e dele fazem parte os medíocres: para pegar o filé, ou seja, a oportunidade de matar gente para desopilar o fígado, é necessário batalhar muito (como mostra a prova do Bope). Marcos Rolim fala mais sobre isso.   

 - A questão dos usuários de drogas. É claro que o usuário de drogas financia o sistema do tráfico. È claro que ele é responsável pela criminalidade. O filme mostra isso e dá um soco no fígado de quem fuma maconha e cheira cocaína. Só que socialmente falando, é impossível acabar com o uso de drogas. Logo, a legalização torna-se necessária.

- Estudar é para otários. Na visão do capitão Nascimento, estudar Direito é um erro idealista do personagem André Matias. O filme é irônico quanto ao que pensa Foucault a respeito do aparato repressivo do Estado. Cristóvão Feil acha que ele fez tais ironias de propósito, tu podes ler aqui. É curioso o comportamento da direita nesse sentido: os mesmos que acusam Lula de idiota por não ter estudo acham que ter um curso superior é inútil. O filme traz um aspecto interessante para ser discutido na academia - até que ponto nossas idéias não são pré-concebidas pela falta de informação? Até que ponto a preocupação com as questões sociais não é ingênua, justamente por que não há uma dedicação real à coisa? O caso do óculos de Romerito é emblemático: o universitário faz parte da ONG, mas não consegue perceber as questões mínimas que estão diante de si.

A discussão não vai acabar hoje nem amanhã.






















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