a Veja e os ateus profetas
Gosto de ler a Veja por que ela sempre me surpreende.
Como bem disse a Márcia, no seu blog, a questão matriz da revista é que ela faz "jornalismo de tese", o que a professora descreve como não sendo jornalismo de fato. Só que nesta semana, fiquei surpreso com a matéria de capa - "A Fé no Terceiro Milênio" - que fala sobre os conflitos entre os adeptos da religião teísta e da religião ateísta. A revista, como todos sabemos, tem compromisso firmado com o cristianismo. O autor André Petry, ao final da primeira matéria, dá uma espécie de "lição de moral" dispensável. Mesmo assim, a matéria guarda bastante espaço para o contraditório, o que nunca acontece quando a discussão é política.
Chamou a minha atenção a entrevista de Sam Harris, uma das pessoas que mais ganha dinheiro no mundo divulgando a religião ateísta. Harris dá a entender, sem meias palavras, que o mundo seria muito melhor sem mentiras, e que a religião é baseada nelas. Não resta dúvida, a partir disto, que Harris é um profeta tentando levar a sua crença ateísta como a melhor possível para um mundo mais feliz. "Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global", afirma o filósofo ao final da entrevista. O autor de "Carta a uma nação cristã" pretende ter uma missão civilizatória ao tentar assassinar Deus.
Tudo bem, Harris quer criar um mundo sem mentiras. Acredito eu, portanto, que Harris também quer abolir a política, portanto. Gostaria muito de saber como o profeta pensa um mundo sem a política. Talvez, as decisões fossem baseadas apenas e tão somente no método científico, o totem mais significativo da religião ateísta. Em um mundo puramente baseado no método científico, não haveria qualquer dúvida acerca do aborto do sétimo filho de uma mãe solteira e sifilítica - mesmo que posteriormente ele viesse a se tornar Ludwig van Beethoven.
Outra coisa que chamou atenção é o fato dos países europeus apresentarem o maior número de adeptos da religião ateísta - inclusive, apenas 30% dos franceses são crentes. Curiosamente, os intelectuais franceses são, até o presente momento, aqueles que mais subverteram o método científico, através da crença forte no relativismo e nas teorias horizontais. Talvez a principal divindade ateísta não tenha tantos adeptos por lá.
Dado interessante este: 93% dos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos não aceitam a idéia de um Deus. Dá para imaginar metade destes como agnósticos - não se preocupam com isto - e a outra metade, como adeptos da crença ateísta. É completamente justo, no momento em que, uma vez crente em Deus, muitas vezes o cientista perde a moral diante dos adeptos da religião supracitada.
E por último, a pesquisa encomendada. Veja constatou que a maior parte dos brasileiros não votaria em adeptos da religião ateísta. A pesquisa é ruim - as alternativas eram "sim", "depende da pessoa", "não" e "não sei", diante das perguntas "você votaria em um negro/homossexual/ateu/em uma mulher". Eu responderia "depende da pessoa" em todos - votaria no Paim, mas não no Collares, embora ambos sejam negros - e nem de longe isso parece um "não". Ainda assim, 59% dos brasileiros não confiam em um governante ateu. O que me causou espécie, porém, foi que 12% dos brasileiros também não votariam jamais em uma mulher para governar o país, o que demonstra um significativo atraso em relação a preconceitos.
Preconceitos nunca são saudáveis, mesmo contra os adeptos da religião ateísta.

















