A "tropa de elite" da BM de Flores da Cunha perdeu um soldado, assassinado por um pai de família apavorado com a campana que três soldados faziam na sua casa. Um deles tentou invadir a sua residência, inclusive.
A "tropa de elite" da BM atendeu o clamor de boa parte da população, sedenta por sangue: torturou três suspeitos, entre eles um adolescente de 16 anos, violentado com um cabo de vassoura, dentro de sua própria casa.
A primeira grande matéria sobre isso saiu em ZH quando a Brigada Militar, atendendo um pedido do secretário de segurança do Estado, afastou do comando do BOE todos os policiais acusados de negligência e/ou envolvimento no caso, como dá para ver nesta matéria do dia 3 de janeiro.
É necessário demonstrar a diferença entre a linha editorial de ZH e do jornal Pioneiro, dois veículos da RBS, neste caso. Enquanto ZH colocava títulos que diziam muito pouco, o Pioneiro foi bem mais ostensivo na mesma data. A matéria é a mesma, recheada de fontes da Brigada Militar.
Um fato curioso de observar é que o Jornal Pioneiro, do mesmo dia, confirma que o menor de idade foi mesmo torturado com o cabo de vassoura:
Agressão por parte de PMs
- É o inquérito mais complicado e demorado. Até ontem, quatro pessoas tinham sido ouvidas e outras três devem ser interrogadas hoje. O delegado Ives já tem em mãos a confirmação técnica de que o rapaz de 16 anos foi agredido com um cabo de vassoura introduzido no ânus. Outros laudos mostram que os outros envolvidos que denunciaram agressões pelos PMs têm escoriações leves."
No entanto, nas edições subsequentes, Zero Hora coloca todos os fatos envolvendo tortura no condicional, demonstrando uma curiosa prudência, pois os fatos ainda não foram confirmados pela corregedoria da BM:
"Além das suspeitas de tortura" (04/01)
"As suspeitas de tortura supostamente praticada por PMs contra adolescentes, na Serra" (07/01 - nos dias anteriores, sábado e domingo, nenhuma matéria apareceu)
" Em Porto Alegre, no domingo, os cinco rapazes que teriam sido agredidos por PMs" (08/01)
Ao lado dessa matéria, tem uma entrevista efusiva do coronel Mendes alegando que a BM tem sim o direito de entrar na casa de bandidos e que "parece que estamos voltando ao tempo do Bisol". Comportamento previsível, mas não vamos fugir do tema.
No dia 8 de janeiro, cinco dias depois do afastamento e 13 dias depois da ocorrência, aparece em ZH a entrevista com o adolescente que foi empalado pelos brigadianos. O repórter é Adriano Duarte, do Pioneiro. No Pioneiro, a entrevista vai para a capa, com a cartola "Vítima de tortura fala". Em ZH, a entrevista foi para o lado inferior direito da primeira página de polícia. O destaque é a entrevista do Coronel Mendes e a cartola "Bandido não tem endereço, tem esconderijo. O endereço do bandido é o presídio." Não estranharia o sobrenome "Nascimento" após o nome do coronel.
No mesmo dia, porém, acontece o fato que muda toda a cobertura. Não é uma notícia nova, nem uma atitude diferente da BM. É a coluna de Paulo Sant’Ana.
Uma coluna inteira falando sobre o crime cometido pela polícia. "Foi um dos piores crimes cometidos por agentes da autoridade policial em todos os tempos no RS", bradou o dono da última página. No mesmo dia, Lasier Martins dedicou quase todo o programa ao fato de Flores da Cunha. Inclusive, entrevistou o advogado dos PMs, Alencar Dallagnol, que disse algumas coisas surrealistas, tais como "não existem provas de tortura", "os ferimentos no ânus podem ter acontecido por outro motivo".
Desde então, nenhum fato novo ocorreu, e ZH não noticiou coisa alguma. Porém, a mudança de postura no programa Gaúcha Repórter me deixou um pouco mais animado. Pelo menos mais um veículo da RBS tratou o crime da mesma forma que todos os outros crimes, não cometidos por policiais, foram tratados.
Adendos:
- justiça seja feita: fiquei sabendo do caso através do programa de Lasier Martins, Gaúcha Repórter, no dia 3 de janeiro. Ele entrevistou a mãe dos adolescentes torturados. Senhora simples, sem muita habilidade diante do microfone, mas que descreveu o horror com muita clareza. Foram quase 40 minutos de entrevista, e depois Lasier abriu o microfone para que algum brigadiano envolvido no caso fizesse a sua defesa. Ninguém o fez. Achei ótimo que a produção do programa tenha buscado exatamente quem foi testemunha do ocorrido, e não versões truncadas da corregedoria.
- o blog Ponto de Vista também abordou esse assunto aqui, com mais recortes de jornais e mais veemência.