to the chaos and back

March 20, 2008

a favor de Fernandão

O melhor que pode acontecer para o capitão do Internacional é ir para o banco de reservas.

Os dois últimos jogos que vi do Inter foram contra Juventude e Chapecoense, ontem. No Centenário, Fernandão não foi mal; para mim, foi prejudicado pelo excelente esquema de marcação montado pelo treinador do Papo. Ontem, ele teve uma atuação ridícula. Lembrou os 200 centroavantes que Fernando Carvalho testou no Inter no seu mandato – especialmente, os piores, como Beto Cachoeira e Toledo. Perdeu todos os lances; não entrava nas divididas; desperdiçou gols feitos; parecia sem qualquer tesão por colocar a bola nas redes.

A demonstração mais clara disso foi o gol de Adriano, um jogador tecnicamente limitado, mas muito esforçado. No único momento que teve espaço, bem no final do jogo, baixou a cabeça e desceu o sarrafo na bola. Ele queria muito aquele gol. Fernandão não parecia querer o gol em nenhum momento. Estava displicente, desligado, enfastiado. Um burocrata.

Fernandão está no time por ser quem é. Manda no clube, só sai quando quiser. Só vai entrar em alguma lista de dispensas se assumir um presidente que tenha alguma divergência pessoal com ele – o que não é o caso.

No entanto, Abel é um dos únicos treinadores com autoridade para colocá-lo na reserva. Precisa fazer isso, para o bem do Inter e para o bem do atleta. A sua displicência contamina o time inteiro, pois ele é a referência, o líder. É quem levanta a taça e ganha o maior salário.

É um jogador de partidas decisivas. Esses três meses jogando contra times fracos, com classificação garantida, sem os desafios dos últimos três anos, parecem encher o seu saco. Ele quer a copa Dubai, Yokohama, a Libertadores. Nada disso está ao seu alcance. Jogo decisivo, só em abril.

Até lá, ele poderia abrir lugar para os guris que estão no banco. Guto, Valter, até mesmo Adriano. Eles estão sedentos por uma oportunidade. Querem estufar as redes com toda a força, mandar os gols para a namorada, a mulher, a mãe, os filhos. Querem o canto da Popular com o seu nome. Fernandão tem tudo isso há anos e não perderá nunca. Sua figura está imortalizada nas bandeiras e nos maiores pôsteres.

Se tomarem o seu lugar, Fernandão se sentirá ameaçado. Um leão ferido. Voltará a sentir o cheiro da carne fresca e arrepiar o pêlo. Voltará a treinar com vontade e buscar o gol com raça. Voltará, enfim, a jogar um futebol que corresponda ao seu avatar.

E aí, marcar gols nas grandes decisões será bem mais fácil.

March 19, 2008

o bode e a sala

Genial a idéia de banir as bebidas alcoólicas dos estádios. É exatamente o que todos precisavam.

Vivemos um tempo estranho: o álcool é considerado uma das drogas mais nocivas da sociedade. Centenas morrem por beber e dirigir. Milhares de mulheres apanham em casa por conta de maridos bêbados. Dezenas de milhares de casos de violência são provocados por bebidas - o secretário de segurança falou até em Lei Seca. O cerco ao álcool está em toda parte. Porém, a bebida continua legalizada.

Agora, os estádios de futebol. Em outros tempos, tentaram adotar medidas semelhantes. Com medo de eventuais desordens, a BM pediu ao Inter para que impedisse torcedores bêbados de entrar no estádio, na final da Libertadores. Colocou bafômetros. Foi um fracasso retumbante. Todos os pinguços entraram, vibraram, beberam mais lá dentro, e ninguém saiu ferido, preso ou morto. Agora, acham que tirando a cerveja das copas vão conseguir evitar atos de violência.

Todos que querem assistir às partidas bêbados tomam um trago antes - é muito mais barato e ainda dá para socializar com os amigos de fé. Não são poucos os que vão para a arquibancada chapados de pó, maconha, loló e afins. Também não são poucos os que fumam maconha DENTRO da arquibancada. Mais ainda: o principal foco de consumo de bebidas no Beira-Rio é a social. Em segundo lugar, a superior. São as pessoas que têm mais dinheiro - não dá para sustentar um trago com latinhas de Sol a R$ 2,5 - e quem pode acessar a copa com maior facilidade, pois há mais e maiores bares. Quem vai na Popular bebe antes e depois do jogo. Bebe muito pouco no intervalo - no máximo dá para comprar duas latinhas. Bebe menos ainda durante a partida, pois é muito complicado passar por todo mundo, e mais complicado ainda perder aquele ataque que está começando.

Outra: quantas ocorrências de violência são diretamente relacionadas ao consumo de bebida alcóolica no estádio? Vejamos o grenal dos banheiros químicos: houve mais consumo por pessoa de bebida na torcida do Grêmio, que invadiu o espaço colorado? Vejamos o grenal seguinte, no qual a torcida colorada entrou em confronto com a polícia: o bar do Olímpico estava fechado! Vejamos em outros lugares. Na Argentina, há muito tempo não se pode beber no estádio. No domingo, mataram um torcedor do Vélez a tiros no entorno do campo. E nenhuma gota de álcool foi consumida no Fortin. No ano retrasado, a torcida do Nueva Chicago arrebentou o alambrado e partiu para a luta contra hinchas do Tigre. Nenhuma cerveja foi vendida em Mataderos. Em São Paulo, a Mancha Verde entrou em confronto com a polícia pq queria invadir o espaço são-paulino em Ribeirão Preto. A bebida estava proibida. Em nenhum dos três conflitos recentes da torcida corintiana com a PM, havia venda de álcool nos estádios.

Afirmo com absoluta certeza: NENHUM dos atos de violência registrados em estádios de futebol têm a ver com os produtos consumidos na copa.

Com a medida, porém, o deputado Miki Breier consegue o seu objetivo. Joga para a imprensa e para outros interessados, como o Sindicato Médico. A imprensa saúda e diz que vai começar agora o fim da violência. Os demais interessados fazem coro para convencer a torcida a levar as “famílias” ao campo.

Mais adiante, quando morrer alguém no campo de futebol, quando novos atos de vandalismo acontecerem, quando novas batalhas campais ocorrerem, vão inventar outro bode expiatório. Sem nunca fazer o que de fato funciona: punir diretamente o clube, quando os torcedores daquele clube aprontarem.

A idéia é genial. Mostra como ainda é possível fazer politicagem barata sem nenhum sentido prático. O pior de tudo é que ainda convence alguns incautos.

March 6, 2008

não é fácil ser subversivo

No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
(Belchior – Velha Roupa Colorida)

É muito fácil culpar os estudantes de jornalismo pelo sistema que se perpetua. Somos jovens alienados pela mídia; somos pessoas que se submetem, engolem sapos, nas assessorias de imprensa; somos aqueles que fazem pautas pelo telefone; somos doutrinados pelos patrões, nos acomodamos e não buscamos a essência da profissão, a reportagem, de preferência subversiva. São raros os professores da academia que afirmam isto, explicitamente. A maior parte deles prefere nos atacar quando estamos no mercado, fazendo parte do sistema. Todos eles vêem nos estudantes, nos recém-formados, a esperança de um novo jornalismo melhor, mais imparcial, mais conectado com a realidade.

O discurso dos velhos lobos da profissão tem a sua carga de saudosismo e é repetido sistematicamente pelos profissionais que saem ao mercado. Poucos se dão conta, porém, do quanto este discurso pode ser nocivo à nossa profissão.

Os jornalistas com mais de 50, 60 anos que lecionam nas universidades, via de regra, entraram no mercado com alguma facilidade. Ouvi de um deles, recentemente, que entrou no jornalismo por que um profissional da Zero Hora dominical convidou alunos secundaristas, do Aplicação e do Julinho, que sabiam escrever. Outros se apresentaram nas redações dos jornais, fizeram um ou dois testes com seus chefes e nunca mais saíram. Kenny Braga certa vez afirmou que entrou no jornalismo dizendo “eu quero ser cronista” para o então diretor da Folha da Tarde Walter Galvani. Acabou se tornando cronista.

Hoje, para entregar cartas na redação da Zero Hora como auxiliar de redação, precisamos passar por testes e mais testes de seleção. Precisamos saber inglês. Decorar o nome do presidente do Banco Central norte-americano. Saber quantos metros quadrados tem um hectare.

Na última formatura da Fabico, na qual estavam vários dos meus colegas de faculdade, quase todos tornaram-se desempregados. Conseguir estágios nos semestres mais adiantados da faculdade não é muito difícil: bem mais é conseguir um emprego. Um emprego que pague bem, então, é quase utopia. O jornalista está acostumado a conviver com salários que não chegam a quatro dígitos. Horas extras sem remuneração. Empregos sem planos de saúde, sequer vale-transporte. Abrir pessoas jurídicas para ganhar um pouco mais, mesmo renunciando a todos os direitos trabalhistas. Exigência de carro e CNH para trabalhar como repórter e também como motorista. A redação de jornal grande torna-se distante. A assessoria de imprensa é o caminho mais viável.

Nos bancos da academia, o que ouvimos? A assessoria de imprensa não é um trabalho digno para a nossa profissão. Na redação, não podemos engolir muitos sapos. Temos que mudar as pautas, fazer matérias sobre a Via Campesina, os moradores de rua, para desmentir tudo que está aí.

Poucos percebem, entretanto: as pessoas que dão este tipo de discurso tinham na sua época uma segurança muito maior para tentar mudar o mundo. Uma palavra fora do lugar lhe tirou o emprego? Tudo bem, ali adiante está outro. O editorial não está de acordo com as suas posições políticas? Ali do lado tem um jornal que fala o que tu queres e também paga bem. Nem precisa de muita experiência. Naquela época, os subversivos tinham que fugir da polícia, do DOPS, dos alcaguetes. Hoje, a repressão ostensiva não existe, mas somos diariamente reprimidos pelo fantasma do desemprego. Não está contente com a linha editorial? Tem 400 atrás da tua vaga. Convenhamos que não dá para mudar o mundo com os credores batendo na porta.

O discurso por um novo jornalismo, geralmente de esquerda, não é prejudicial ideologicamente. Acredito na maldade presente nas matérias sobre segurança pública; acredito que Chávez é demonizado injustamente; acredito no poder vil das empresas aéreas sobre a pauta de acidentes. No entanto, vendo o panorama do mercado e como o profissional é desprezado, dá para perceber que muito da responsabilidade sobre a péssima condição de trabalho do jornalista está na tentativa de resgatar valores que não voltam mais.

Quantos jornalistas saem da faculdade conhecendo o Código de Ética? Quem conhece pelo menos um artigo deste código? Quando estudamos a Lei de Imprensa, hoje amplamente debatida, nos bancos da faculdade? Quantos sabem o piso salarial da nossa profissão? Os direitos que são garantidos pela Federação, pelos Sindicatos?

Os poucos professores com consciência política esqueceram em algum canto a consciência de classe. Carregam consigo um séquito de alunos combativos, lutadores, que tencionam mudar a política universal mas não sabem nada sobre o que está mais próximo: os nossos direitos fundamentais, como jornalistas. Parece que existem dois caminhos: a submissão total ou a ruptura incondicional. No fim das contas, quem rompe com o mainstream acaba se vendendo para outros senhores. Fazendo pautas de acordo com as ONGs, as Fundações, até mesmo os fundos de pensão que lhe pagam. Onde está o bom jornalismo no qual nos fizeram acreditar?

Dom Quixote lutava contra os moinhos de vento acreditando que eram poderosos gigantes. Os novos jornalistas de hoje vão pelo mesmo caminho. Combatem em busca de um sonho. São incapazes, entretanto, de derrubar as pás dos reais e palpáveis moinhos que bloqueiam nosso caminho.






















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