não é fácil ser subversivo
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
(Belchior – Velha Roupa Colorida)
É muito fácil culpar os estudantes de jornalismo pelo sistema que se perpetua. Somos jovens alienados pela mídia; somos pessoas que se submetem, engolem sapos, nas assessorias de imprensa; somos aqueles que fazem pautas pelo telefone; somos doutrinados pelos patrões, nos acomodamos e não buscamos a essência da profissão, a reportagem, de preferência subversiva. São raros os professores da academia que afirmam isto, explicitamente. A maior parte deles prefere nos atacar quando estamos no mercado, fazendo parte do sistema. Todos eles vêem nos estudantes, nos recém-formados, a esperança de um novo jornalismo melhor, mais imparcial, mais conectado com a realidade.
O discurso dos velhos lobos da profissão tem a sua carga de saudosismo e é repetido sistematicamente pelos profissionais que saem ao mercado. Poucos se dão conta, porém, do quanto este discurso pode ser nocivo à nossa profissão.
Os jornalistas com mais de 50, 60 anos que lecionam nas universidades, via de regra, entraram no mercado com alguma facilidade. Ouvi de um deles, recentemente, que entrou no jornalismo por que um profissional da Zero Hora dominical convidou alunos secundaristas, do Aplicação e do Julinho, que sabiam escrever. Outros se apresentaram nas redações dos jornais, fizeram um ou dois testes com seus chefes e nunca mais saíram. Kenny Braga certa vez afirmou que entrou no jornalismo dizendo “eu quero ser cronista” para o então diretor da Folha da Tarde Walter Galvani. Acabou se tornando cronista.
Hoje, para entregar cartas na redação da Zero Hora como auxiliar de redação, precisamos passar por testes e mais testes de seleção. Precisamos saber inglês. Decorar o nome do presidente do Banco Central norte-americano. Saber quantos metros quadrados tem um hectare.
Na última formatura da Fabico, na qual estavam vários dos meus colegas de faculdade, quase todos tornaram-se desempregados. Conseguir estágios nos semestres mais adiantados da faculdade não é muito difícil: bem mais é conseguir um emprego. Um emprego que pague bem, então, é quase utopia. O jornalista está acostumado a conviver com salários que não chegam a quatro dígitos. Horas extras sem remuneração. Empregos sem planos de saúde, sequer vale-transporte. Abrir pessoas jurídicas para ganhar um pouco mais, mesmo renunciando a todos os direitos trabalhistas. Exigência de carro e CNH para trabalhar como repórter e também como motorista. A redação de jornal grande torna-se distante. A assessoria de imprensa é o caminho mais viável.
Nos bancos da academia, o que ouvimos? A assessoria de imprensa não é um trabalho digno para a nossa profissão. Na redação, não podemos engolir muitos sapos. Temos que mudar as pautas, fazer matérias sobre a Via Campesina, os moradores de rua, para desmentir tudo que está aí.
Poucos percebem, entretanto: as pessoas que dão este tipo de discurso tinham na sua época uma segurança muito maior para tentar mudar o mundo. Uma palavra fora do lugar lhe tirou o emprego? Tudo bem, ali adiante está outro. O editorial não está de acordo com as suas posições políticas? Ali do lado tem um jornal que fala o que tu queres e também paga bem. Nem precisa de muita experiência. Naquela época, os subversivos tinham que fugir da polícia, do DOPS, dos alcaguetes. Hoje, a repressão ostensiva não existe, mas somos diariamente reprimidos pelo fantasma do desemprego. Não está contente com a linha editorial? Tem 400 atrás da tua vaga. Convenhamos que não dá para mudar o mundo com os credores batendo na porta.
O discurso por um novo jornalismo, geralmente de esquerda, não é prejudicial ideologicamente. Acredito na maldade presente nas matérias sobre segurança pública; acredito que Chávez é demonizado injustamente; acredito no poder vil das empresas aéreas sobre a pauta de acidentes. No entanto, vendo o panorama do mercado e como o profissional é desprezado, dá para perceber que muito da responsabilidade sobre a péssima condição de trabalho do jornalista está na tentativa de resgatar valores que não voltam mais.
Quantos jornalistas saem da faculdade conhecendo o Código de Ética? Quem conhece pelo menos um artigo deste código? Quando estudamos a Lei de Imprensa, hoje amplamente debatida, nos bancos da faculdade? Quantos sabem o piso salarial da nossa profissão? Os direitos que são garantidos pela Federação, pelos Sindicatos?
Os poucos professores com consciência política esqueceram em algum canto a consciência de classe. Carregam consigo um séquito de alunos combativos, lutadores, que tencionam mudar a política universal mas não sabem nada sobre o que está mais próximo: os nossos direitos fundamentais, como jornalistas. Parece que existem dois caminhos: a submissão total ou a ruptura incondicional. No fim das contas, quem rompe com o mainstream acaba se vendendo para outros senhores. Fazendo pautas de acordo com as ONGs, as Fundações, até mesmo os fundos de pensão que lhe pagam. Onde está o bom jornalismo no qual nos fizeram acreditar?
Dom Quixote lutava contra os moinhos de vento acreditando que eram poderosos gigantes. Os novos jornalistas de hoje vão pelo mesmo caminho. Combatem em busca de um sonho. São incapazes, entretanto, de derrubar as pás dos reais e palpáveis moinhos que bloqueiam nosso caminho.

fiquei sabendo que tem uma vaga pra orador disponível na formatura 2008/01….;)
concordo muito, embora dificilmente consiga expressar tais opiniões sem estar com o sarcasmo mode on. admirei a seriedade e a sobriedade, especialmente.
Comment by juliana — March 6, 2008 @ 4:52 pm
concordo, até certo ponto. mas se não houver pregação de um jornalismo utópico na faculdade, onde vai ter?
Comment by macki — March 6, 2008 @ 5:07 pm
Concordo com quase tudo o que tu diz . Mas acho fatalista demais entender que existem só essas duas opções. Penso também que o jornalismo não deve pregar uma imparcialidade inexistente e sim o contrário. O jornalismo deve ser claro e dizer o que pensa independente se está a serviço de ongs, esquerda ou direita. A grande farsa da mídia é a imparcialidade, o jornalismo verdade e blablablá. Todos sabemos que não é assim. Fico preocupado com essa tua resignação aparente meu amigo. Não é hora disso, o jogo é assim mesmo e existem sim muitas maneiras de defendermos nossas idéias, mesmo que as vezes tenhamos que trabalhar onde não queremos. Como dizia um saudoso sábio sino-americano “não devemos pensar no desfecho da luta e sim em lutar”.
Comment by Diego — March 6, 2008 @ 6:05 pm
adorei teu texto, luís. na faculdade a gente aprende que o mais importante é mudar o mundo, militar por causas nobres, dar o sangue por justiça social e tudo mais. mas esquecem de nos ensinar que também é preciso ganhar a vida, que há contas a pagar. a vida real, infelizmente, é bem mais mundana que os belos sonhos revolucionários que temos nos bancos acadêmicos, e aprendi isso levando no couro, baixando a cabeça pras ordens do chefe numa sala de assessoria. convivendo com uma classe profissional tão mobilizada, vejo que estamos inertes, quase mortos com relação a nossos direitos, e isso é grave. na faculdade deve haver a pregação de um jornalismo socialmente prestativo, mas também da necessidade de ação dos jornalistas por seus interesses profissionais.
Comment by viviane — March 6, 2008 @ 7:56 pm
Em parte concordo com o Diego(sobre o fatalismo); entretanto, faz parte sermos radicais quando uma ficha acaba de cair. Com um pouquinho de tempo o equilíbrio vem.
Não imaginas o quão feliz fico em ver tu questionando as ‘verdades absolutas’ da tua profissão…
Comment by Renata — March 6, 2008 @ 9:24 pm
Oportuno, deveras oportuno. Na verdade, acho que em boa parte tu tens plena razão: defender o jornalismo de fundo utópico é de fato uma posição bonita, mas apartada de grande parte da realidade que vivenciamos. Mas, e isso é algo que me pergunto sempre: por que as pessoas ainda sonham com isso? Por que diabos não nos conformamos, como a maioria, com uma colocação digna, com a defesa dos interesses de classe e paramos um pouco com isso de querer mudar o mundo? O que é que nos move no sentido do idealismo, no fim das contas? Na minha opinião, vivemos um momento de transição, no qual o jornalismo está cada vez mais sendo exercido FORA dos veículos tradicionais - e fico com a impressão de que a maioria das pessoas, de alunos de faculdade a professores idealistas, não se apercebeu disso muito bem. Mídias impressas, radiofônicas ou televisivas são cada vez mais fornecedoras de conteúdo, desligadas dos ideais - utópicos, sim, mas necessários - do jornalismo. Onde está o jornalismo, atualmente, eu não sei direito - mas é nosso dever parar um pouco de nos queixarmos, e tratamos de procurar. Devemos isso a todos, mas ainda mais a nós mesmos. É o que penso.
Comment by natusch — March 6, 2008 @ 11:13 pm
Amém.
Comment by carioca — March 11, 2008 @ 2:47 am
É por isso que ando apostando na mídia digital, mais ampla, um pouco mais difícil de controlar, sem muitos caminhos pautados, vislumbrando uma alternativa para o futuro… E, é claro, saindo do Brasil, onde isso tudo ainda vai demorar um bocado para acontecer.
Comment by Raquel — March 11, 2008 @ 3:11 pm
Excelente texto.
Eu chamo isso de “ditadura do passado”. O mundo mudou. Nossos pais, se tivessem na época deles um Playstation 2 certamente não se refeririam com tanta saudade aos seriados do Rin-Tin-Tin e às brincadeiras com estilingue. As coisas mudam, o tempo passa: uma coisa era passar num concurso para juiz há vinte anos atrás, já muito difícil; outra ainda pior é passar atualmente, com um número de pretendentes exponencialmente maior. E por aí vai.
É a vida.
Comment by Daniel — March 16, 2008 @ 8:12 pm
é isso aí. saír do país é a melhor solução, vamos todos!! deixar os pobres apodrecerem no deserto. mais tarde voltamos para a “reconquista”.
Comment by adolfo — March 20, 2008 @ 6:36 pm
Sem desprezar de forma alguma a opinião dos colegas, creio que a maioria dos comentários mostra um entendimento parcial do texto do Luis, com o qual tenho plena concordância. O Luis não faz uma crítica à pregação de um jornalismo utópico nem é resignado quanto à situação atual de desvalorização do jornalista. Ele está justamente apontando que o caminho, tanto para se alcançar um jornalismo “utópico”, quanto para melhorar as condições de vida, passa necessariamente por uma tomada de consciência de classe por parte dos jornalistas. O problema é: quem vai começar botando o seu na reta.
Comment by Prestes — April 3, 2008 @ 12:32 am
Outra questão: tem muita gente boa que está sobrevivendo fora desses sarcófagos. A grana que se ganha é menor, mas a qualidade de vida é muito maior.
Comment by Prestes — April 3, 2008 @ 12:40 am
Nossa! Que texto maravilhoso! É de emocionar, concordo em muito com você. Você poderia escrever um post propondo algumas coisas a serem feitas pelos jornalistas que aidna acreditam na subversão!
Aparece lá no meu blog:
www.desarranjosintetico.blogspot.com
Abraços
Fábio!
Comment by Fábio Nunes — May 19, 2008 @ 5:51 pm
Luís Felipe,
Mas por que diabos vocês sonham em trabalhar na ZERO HORA?! Pra ficar fazendo tele-clipping da GLOBONEWS e audio-clipping da CBN?! Pra responder cartas ao leitor (e virar um aprendiz de editor que deleta tudo o que manda contra a visão política, econômica e social do patrão)? Pra escrever matérias pagas pela Aracruz e pela Souza Cruz?!
A imparcialidade não existe. E a objetividade só existe pra quem acredita que o seu olhar é mais do que suficiente pra retratar um fragmento muito particular de um determinado fato que envolve n relações socioculturais.
PRODUÇÃO INDEPENDENTE: internet (blogs, podcasts, vodcasts), TV a cabo, tv e rádio digital. Ser ágil e preciso para estabelecer redes sociais de colegas, fornecedores e parceiros.
Aí, sim, dá pra fazer jornalismo - que é tudo o que quase não se faz na mídia corporativa.
[]’s,
Hélio
Comment by Hélio Sassen Paz — October 2, 2008 @ 10:09 pm