to the chaos and back

March 19, 2008

o bode e a sala

Genial a idéia de banir as bebidas alcoólicas dos estádios. É exatamente o que todos precisavam.

Vivemos um tempo estranho: o álcool é considerado uma das drogas mais nocivas da sociedade. Centenas morrem por beber e dirigir. Milhares de mulheres apanham em casa por conta de maridos bêbados. Dezenas de milhares de casos de violência são provocados por bebidas - o secretário de segurança falou até em Lei Seca. O cerco ao álcool está em toda parte. Porém, a bebida continua legalizada.

Agora, os estádios de futebol. Em outros tempos, tentaram adotar medidas semelhantes. Com medo de eventuais desordens, a BM pediu ao Inter para que impedisse torcedores bêbados de entrar no estádio, na final da Libertadores. Colocou bafômetros. Foi um fracasso retumbante. Todos os pinguços entraram, vibraram, beberam mais lá dentro, e ninguém saiu ferido, preso ou morto. Agora, acham que tirando a cerveja das copas vão conseguir evitar atos de violência.

Todos que querem assistir às partidas bêbados tomam um trago antes - é muito mais barato e ainda dá para socializar com os amigos de fé. Não são poucos os que vão para a arquibancada chapados de pó, maconha, loló e afins. Também não são poucos os que fumam maconha DENTRO da arquibancada. Mais ainda: o principal foco de consumo de bebidas no Beira-Rio é a social. Em segundo lugar, a superior. São as pessoas que têm mais dinheiro - não dá para sustentar um trago com latinhas de Sol a R$ 2,5 - e quem pode acessar a copa com maior facilidade, pois há mais e maiores bares. Quem vai na Popular bebe antes e depois do jogo. Bebe muito pouco no intervalo - no máximo dá para comprar duas latinhas. Bebe menos ainda durante a partida, pois é muito complicado passar por todo mundo, e mais complicado ainda perder aquele ataque que está começando.

Outra: quantas ocorrências de violência são diretamente relacionadas ao consumo de bebida alcóolica no estádio? Vejamos o grenal dos banheiros químicos: houve mais consumo por pessoa de bebida na torcida do Grêmio, que invadiu o espaço colorado? Vejamos o grenal seguinte, no qual a torcida colorada entrou em confronto com a polícia: o bar do Olímpico estava fechado! Vejamos em outros lugares. Na Argentina, há muito tempo não se pode beber no estádio. No domingo, mataram um torcedor do Vélez a tiros no entorno do campo. E nenhuma gota de álcool foi consumida no Fortin. No ano retrasado, a torcida do Nueva Chicago arrebentou o alambrado e partiu para a luta contra hinchas do Tigre. Nenhuma cerveja foi vendida em Mataderos. Em São Paulo, a Mancha Verde entrou em confronto com a polícia pq queria invadir o espaço são-paulino em Ribeirão Preto. A bebida estava proibida. Em nenhum dos três conflitos recentes da torcida corintiana com a PM, havia venda de álcool nos estádios.

Afirmo com absoluta certeza: NENHUM dos atos de violência registrados em estádios de futebol têm a ver com os produtos consumidos na copa.

Com a medida, porém, o deputado Miki Breier consegue o seu objetivo. Joga para a imprensa e para outros interessados, como o Sindicato Médico. A imprensa saúda e diz que vai começar agora o fim da violência. Os demais interessados fazem coro para convencer a torcida a levar as “famílias” ao campo.

Mais adiante, quando morrer alguém no campo de futebol, quando novos atos de vandalismo acontecerem, quando novas batalhas campais ocorrerem, vão inventar outro bode expiatório. Sem nunca fazer o que de fato funciona: punir diretamente o clube, quando os torcedores daquele clube aprontarem.

A idéia é genial. Mostra como ainda é possível fazer politicagem barata sem nenhum sentido prático. O pior de tudo é que ainda convence alguns incautos.

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