o brilho da Copa

Em princípio, a ressalva de que não vi o jogo. Um motivo pessoal, o qual não preciso comentar. No supermercado, minutos depois de tomar tal decisão - pouco passava das 19h - me bateu um arrependimento absurdo, sinal de uma grande confiança presente nos meus ombros por todo o dia. Eu sabia que a noite de ontem seria histórica. Imaginava, porém, dois a zero e penais.
Ouvi no meu novo rádio de pilha. Nunca façam isso com outra opção. É uma atividade torturante, de violentar até mesmo o coração mais tranquilo. Ouvi alto, pois Morgana queria meus fones. Aliás, Morgana foi extremamente compreensiva no primeiro tempo. Ouviu comigo, na sala, os trinta primeiros minutos. Parecia gostar das vozes desvairadas, até. Não sei se preciso descrever os fatos: lesão de Jonas, gol sofrido num momento de desestrutura, Andrezinho em chamas fazendo dois ao lado de Índio.
O momento mais terrível no meu imaginário foi o início do segundo tempo. Abel Braga, acostumado a viver de loucuras, tinha três atacantes em campo num jogo de dez contra nove. Depois, vendo o VT, percebi que Bonamigo fez exatamente o que eu imaginava: colocou até a mãe atrás, chutando tudo. Só o Inter tinha a bola. Eu não tinha um campo diante de mim para ver isso. Logo, levava o rádio na mão esquerda e sofria. A tranquilidade na qual as coisas se desenrolavam no início da segunda etapa me apavorou. Achar que o gol apareceria a qualquer momento era a pior coisa possível.
Só que este Inter é copeiro. Sim, copeiro. O adjetivo é utilizado por outros clubes? Dane-se. Copeiro é aquele que serve os outros? Não no futebol. Esse time do Inter é o time das grandes decisões, que joga com enfado nos pontos corridos e coisas do gênero, mas sua sangue quando vislumbra uma copa. É uma característica presente desde 2006, quando Abel assumiu. Abel tem algo de comandante aloprado que funciona muito bem sob pressão, deve ser isso. Ontem, ele só pôde fazer as substituições necessárias. Os jogadores caíram, eram expulsos, lesionados. As três alterações foram queimadas logo no início da segunda etapa.
O quatro a um veio, cedo. O horror. Na minha cabeça radiofônica, o Inter poderia levar um gol a qualquer momento, e a trave salvou em certa hora. Porém, a bola não sabia dos pés da equipe merengue. Aliás, o uniforme branco foi escolha dos atletas. Optaram pela mística. Só poderia ser assim.
Quando veio o quinto, o sentimento de catarse. Represado. Não poderia gritar em casa. Não tinha coragem de gritar na rua. Cheguei a sair correndo. Voltei. A incredulidade me travava as pernas. Nunca ouçam o jogo pelo rádio sozinhos. Nunca. Nem que seja para pegar um ônibus e ouvir lá no Gato do Alemão.
Ontem, o racional perdeu de goleada. Disse para amigos colorados, tempos atrás, que o Internacional precisava de uma partida de afogo, de horror, para crescer e acordar a mística que ainda não voltou de Yokohama. Pois, a mística voltou. Agora já dá para ver o brilho da Copa.
