crime de favela não dá folhetim
não tenho quase nada a acrescentar sobre o caso Isabella que não tenha sido dito por outros 400 meios de comunicação nos últimos dias. Há uma comparação intrigante, porém.
quando mataram João Hélio, com toda aquela crueldade, em quatro (4) dias a Polícia, que não viu o crime, já tinha absoluta certeza sobre quem eram os criminosos. Acharam os cinco bandidos em menos de cinco dias. O crime aconteceu dia 7; confissão atrás de confissão, sem nenhum flagrante e com testemunhos não muito claros, prenderam um menor e quatro responsáveis.
na época, pediam o fim da maioridade penal aos 18; a pena de morte; a execução sumária dos envolvidos; diziam que 30 anos de cadeia era pouco; que três anos na Fase era uma vergonha; revisaram a lei de crimes hediondos; enfim, fizeram tudo, menos colocar em suspeita os métodos utilizados pela PM para encarcerar os cinco. Alguém precisava pagar o pato.
hoje, dia 18, a morte de Isabella Nardoni completa vinte dias. Tudo parece indicar que foram o pai e a madrasta os assassinos. Um crime igualmente bárbaro: estrangularam, espancaram, e depois jogaram pela janela. Vinte dias depois, a polícia ainda não conseguiu incriminá-los. Assim como no caso João Hélio, não havia flagrante. Assim como no mesmo caso, as testemunhas pouco viram.
Existem duas diferenças.
A primeira: após tantas manobras diversionistas, o casal até conseguiu voltar algumas pessoas a seu favor. Pessoas que questionam a cobertura excessiva da mídia e que até descobriram aquela máxima do direito penal, todo mundo é inocente até prova em contrário. Não confessaram o crime, nem foram obrigados a tal por algum delegado mais, digamos, incisivo.
A segunda: o casal tem dinheiro para pagar bons advogados. Nenhum defensor público enfrentaria a opinião geral por causa de meia dúzia de favelados.
mas também, a condição social dos criminosos pode ser mera coincidência…

como sempre, a imprensa arma um circo de sensacionalismo em torno do caso. como sempre, a opinião pública já elege seu(s) culpado(s) baseada apenas em achismos.
apropriado o título “crime de favela não dá folhetim”. devo admitir que pouco estou ligando pro caso da menina Isabella. pq deveria? todos os dias, mtas outras crianças morrem. algumas de maneira tão violenta qto. e aí, onde está a mídia? ou a menina ou o menino pobre, negro e favelado não merece despertar o mesmo “clamor por justiça” que a garota branca e de família rica?
Comment by André Vieira de Lima — April 20, 2008 @ 2:21 am
Entendi a tua intenção ao fazer a comparação, mas preciso usar os meus ainda parcos conhecimentos em Ciências Penais pra te dizer que existe uma diferença básica e fundamental entre os dois crimes: as testemunhas. Enquanto no caso do João Hélio a mãe presenciou a cena e fez o reconhecimento dos envolvidos, além de dezenas de pessoas que viram o menino ser arrastado, no caso da Isabella, só quem cometeu o crime sabe o que, de fato, aconteceu. A dependência da perícia torna a acusação mais difícil. Ainda mais a perícia brasileira, que em nada parecem com o esteriótipo dos CSI.
Tem outro ponto, também: é mais fácil acreditar que o crime tenha sido cometido por um terceiro (como no caso do João Hélio), que por dois familiares (como no caso da Isabella).
Quanto à exposição exagerada, em ambos os casos, concordo contigo. Mas preciso dizer que, enquanto leitora/espectadora, me interessa a solução de crimes atípicos, como estes. Talvez por isso minha inclinação ao jornalismo policial.
Comment by Thais Sardá — April 21, 2008 @ 1:56 pm
Eu confesso que também fiquei interessado no desfecho do crime. Porém, creio que a função de entreter com mistérios deveria ficar para os romancistas, como Agatha Christie. Despertar interesse individual (entretenimento) nas pessoas não quer dizer que é do interesse público. A Polícia Civil gaúcha, por exemplo, tem 40 mil inquéritos atrasados. Vários crimes envolvem quadrilhas e bandidos de verdade. Estes são de interesse público. Além disso, o crime não foi uma barbárie, como se está propagando, foi um momento de descontrole de duas pessoas que não tinham o equilíbrio necessário para ter filhos. Barbárie é a “nova tática da BM contra os mendigos”, essa sim. Barbárie é a população brasileira aceitar que existem grupos de extermínio que entram na favela sob o nome de polícia e fazem o que bem entendem.
Comment by Prestes — April 22, 2008 @ 11:55 pm
caso isabella mostra semelhancas com caso madeleine.
cobertura espetaculosa nao e privilegio da midia brasileira.
e a repercussao desse tipo de acontecimento pelo menos e valida para pensar nos limites do interesse jornalistico, coisinha das mais complicadas e fora de controle que existe.
Comment by Franke — April 23, 2008 @ 1:23 pm
(a foto do blog tem algum significado especial?)
Comment by Franke — April 23, 2008 @ 1:26 pm
Thaís, confio nos teus conhecimentos criminalistas. Agora, a polícia afirma ter duas testemunhas-chave. O fato, porém, é a diferença entre obter uma confissão de guris assustados da favela e permitir a um casal de média-alta, com bons advogados, uma defesa quixotesca até mesmo na televisão.
Prestes, acredito que o folhetim é de interesse de muitas pessoas, inclusive eu. Isso pode não caracterizar um interesse público, mas dá uma tremenda audiência. Ontem o Coletiva.net divulgou os números: 25% de aumento no número de telespectadores em média, na Globo e nas menores.
Quanto aos 40 mil inquéritos, creio que no trabalho da polícia isso não é excludente. Inclusive, as investigações sobre o caso parecem estar um tanto emperradas.
Fipa, claro que não é exclusividade da imprensa brasileira. Os ingleses, por exemplo, são obcecados por festas nazistas. A foto não tem nada de especial, só achei que tinha a ver com o título do blog.
Comment by Administrator — April 23, 2008 @ 1:41 pm