um futuro mais saudável
Ao contrário de todo mundo, eu não acho que o futuro será muito pior para a minha filha. Acho, inclusive, que será mais saudável.
O álcool será proibido. É questão de tempo. Existem leis contra a venda em postos; existem cidades nas quais não se pode beber na rua à noite; agora, ninguém pode beber qualquer coisa antes de dirigir. Mais adiante, será proibido o consumo em público e a propaganda na televisão, como quase aconteceu agora há pouco. Os cigarros agonizam; amanhã, serão as bebidas alcoólicas.
A gordura trans será proibida. Tem um projeto sobre isso tramitando na Câmara, rejeitado em um primeiro momento, mas que logo será aprovado. Afinal, Nova York já aprovou; e o que não copiamos dos yankees, não é mesmo? O lanche da Morgana na escola não terá mais biscoitos recheados, de polvilho e outras atrocidades cardíacas. As festinhas de 12 anos nas garagens não terão mais garrafas de vinho escondidas, compradas por algum corajoso no armazém da esquina - até lá, o armazém da esquina será tão idoso quanto o mimeógrafo. Talvez a própria palavra “cigarro” fique escondida em algum canto da memória dela, como “aquilo que minha mãe e minha avó usavam”.
Não teremos álcool, nem gordura. Talvez não mais combustíveis poluentes. O petróleo já atinge níveis estratosféricos, os carros de hidrogênio e biodiesel estão sendo produzidos e os carros novos nem soltam mais fumaça. Morgana poderá respirar melhor nas ruas, pois evitaremos o uso de papel ao máximo, não só com os cartões eletrônicos e os computadores de mão, mas também com as campanhas massivas de conscientização ecológica. Morgana talvez nem goste de livros em papel branco. Ache bem mais simpáticos os tons pastéis dos papéis reciclados.
A minha dúvida é: até lá, as relações humanas serão mais saudáveis? Cada vez se consome mais gente nesse mundo. É cada vez mais fácil ter amigos conforme os interesses do momento, sejam eles quais forem. Existem comunidades de amigos, fóruns de discussão, programas de bate-papo, nos quais podemos adquirir amigos diferentes para cada tema. Talvez aquele conceito de amigos com os quais falamos sobre tudo, desde sexo até laterais esquerdos, nem seja mais utilizado quando Morgana completar 16 anos.
Sem falar no álcool. Se for proibida a cerveja, o que será das intermináveis rodas de bobagem no sábado a noite?
Vou mudar os meus conceitos de “pior” e “mais saudável”. Talvez eles sejam congruentes.
