muito simpática
a vinhetinha da TV Pampa que toca nas rádios:
“se você tem tempo, venha curtir
os programas da nos-sa televisão
tá legal
a nossa TV Pampa tá muito legal
tá legal
a nossa TV Pampa é o seu canal”
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ficou pesadíssimo o duelo entre Luís Nassif e Diogo Mainardi depois da prisão de Daniel Dantas.
pelos trechos do relatório revelados por Nassif, as ligações entre Mainardi e Dantas são próximas. Dantas orientava Diogo sobre o que falar, quando e como. Não li o relatório para ver se existe alguma ligação de Dantas com as violentas críticas de Mainardi à fusão entre BrT e Oi, patrocinada por Dantas. Não faz sentido? Não sei. Também não faz sentido um jornalista ser pautado pelo banqueiro e depois atacar os seus negócios. Alguma coisa aconteceu nesse meio tempo.
reitero que não li o relatório, mas Nassif deve ter lido, tanto que encontrou esses trechos. Lá pelas tantas Mainardi diz que “acabou com a palhaçada” de Nassif e os dois marcam um encontro. Ali fica claro que existiu uma ligação entre os dois. O que não dá para saber é se essa ligação foi financeira ou apenas acerca de orientações de pauta.
sobrou também para Janaína Leite, a princípio descrita apenas como uma jornalista atrás de orientações, ainda mais de uma fonte importante como Dantas. Janaína, porém, parece bastante apavorada no seu blog com a repercussão. Um amigo seu, que comanda o Imprensa Marrom, demonstrou pressa em defendê-la. Janaína se envolveu numa rusga com Nassif anteriormente por reclamar de citações injustas no Dossiê Veja. Curioso também que Janaína vai entrevistar Diogo Mainardi sobre o assunto, e ele responde:
JANAÍNA: O que tem a dizer sobre o relatório da PF, onde seu nome aparece?
DIOGO: Uma patetice. Uma fanfarronice. E um tiro no pé. O delegado listou um monte de jornalistas, gente de primeiro time, acima de qualquer suspeita. Nos últimos anos, amolei um bocado os inspiradores desse inquérito: Gushiken, Demarco, Lacerda e seus blogueiros achacadores. Vários deles me processaram e se deram mal. Agora estão tentando me condenar de outra maneira, mas vão quebrar a cara mais uma vez. O juiz De Sanctis nem levou em consideração essa palhaçada.
Parece óbvio, para mim, que a intenção de Janaína e Diogo é se safar da história. Ambos foram citados no relatório como pessoas próximas a Dantas - o que não é exatamente negativo, pois por mais que Dantas seja uma usina de falcatruas, também por isso é uma boa fonte. Se ambos não tivessem culpa nenhuma no cartório, duvido que reagiriam com tanta força àquilo que Nassif já dizia antes e está dizendo agora.
Diogo Mainardi, por exemplo, publicou uma coluna lotada de ofensas na Veja dessa semana - leia aqui. Nassif respondeu com as provas que colocam Mainardi - ou seria MNI ao lado de Dantas e com um desagravo no seu blog.
O jogo de palavras ficou bem pesado. Porém, ainda acho que os reis de espadas ainda não chegaram na mesa. Nassif demonstrou que sabe bastante, o que provoca uma série interminável de ofensas pessoais contra si, citando fatos do seu passado e das suas dívidas com o BNDES. A resposta com baixaria demonstra que alguma coisa há de verdade nisso tudo.
um jornalista pegou duas mulheres por semana, na novela das nove.
não sei qual é o objetivo da Globo em fazer do personagem de Carmo Della Vecchia o maior pegador da novela, sendo ele um michê das palavras. Talvez seja um resultado de alguma política de redução de gastos no departamento de jornalismo. Para não desanimar os periodistas, colocam em todos a imagem de comedores. É uma boa medida, mas as mulheres heterossexuais não devem gostar muito.
enquanto isso, vivemos tempos obscuros. A Polícia Federal investiga gente da Globo, como César Tralli, para saber de onde eles tiraram informações privilegiadas sobre a prisão da cafajestada - Dantas, Nahas, Pitta. O problema é que ninguém vai atrás dos inúmeros jornalistas que foram cooptados por Dantas nesse meio tempo, como Mainardi e asseclas. Nem irá. Esses jornalistas fizeram o que lhes é mais caro: aproveitaram-se das exclusivas de Dantas e ao menor sinal de problema, roeram a corda. Agora, estão metendo pau no Dantas, como todo o restante da opinião pública.
E a nave? Vai. Nada a dizer quando a revista de maior circulação nacional continua sendo a Veja.
texto sobre o show de Joss Stone no jornal de sábado:
(…)Linda, ao vivo é mais tudo. O show foi envolvente e ela deslizou, afinadíssima, pés descalços pelo tapete persa. Com uma mescla de sensualidade e meiguice, agradou tanto no palco com uma competentíssima banda, sorriu sempre e não perdeu a ternura… jamais. Afinada totalmente, cantou já conhecidas músicas do primeiro CD, ‘The Soul Sessions’ e do segundo, ‘Mind, Body & Soul’. Espontaneamente feliz no palco, foi do soul ao reggae dominando o cenário com um balanço contagiante. A legião de fãs cantando até as músicas de seu novo CD, ‘Introducing Joss Stone’. Emocionada e com aparente espanto, agradeceu a interatividade total com o público, arriscando palavras em português. Despediu-se… voltou ao palco para o bis… encantou… distribuiu rosas e saiu feliz. Mistura de diva em processo e eterna garota. Piercing no nariz, pinta no braço esquerdo e sentimento que brota do seu espírito musical e de seu corpo que encanta e causa inveja… Yeah!
nunca imaginei ver em um jornal tão sisudo texto cheio de reticências e terminando com um Yeah!. Não sei se é bom, se é ruim, mas é bem diferente da época dos Bastos Ribeiro.
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
(Belchior – Velha Roupa Colorida)
É muito fácil culpar os estudantes de jornalismo pelo sistema que se perpetua. Somos jovens alienados pela mídia; somos pessoas que se submetem, engolem sapos, nas assessorias de imprensa; somos aqueles que fazem pautas pelo telefone; somos doutrinados pelos patrões, nos acomodamos e não buscamos a essência da profissão, a reportagem, de preferência subversiva. São raros os professores da academia que afirmam isto, explicitamente. A maior parte deles prefere nos atacar quando estamos no mercado, fazendo parte do sistema. Todos eles vêem nos estudantes, nos recém-formados, a esperança de um novo jornalismo melhor, mais imparcial, mais conectado com a realidade.
O discurso dos velhos lobos da profissão tem a sua carga de saudosismo e é repetido sistematicamente pelos profissionais que saem ao mercado. Poucos se dão conta, porém, do quanto este discurso pode ser nocivo à nossa profissão.
Os jornalistas com mais de 50, 60 anos que lecionam nas universidades, via de regra, entraram no mercado com alguma facilidade. Ouvi de um deles, recentemente, que entrou no jornalismo por que um profissional da Zero Hora dominical convidou alunos secundaristas, do Aplicação e do Julinho, que sabiam escrever. Outros se apresentaram nas redações dos jornais, fizeram um ou dois testes com seus chefes e nunca mais saíram. Kenny Braga certa vez afirmou que entrou no jornalismo dizendo “eu quero ser cronista” para o então diretor da Folha da Tarde Walter Galvani. Acabou se tornando cronista.
Hoje, para entregar cartas na redação da Zero Hora como auxiliar de redação, precisamos passar por testes e mais testes de seleção. Precisamos saber inglês. Decorar o nome do presidente do Banco Central norte-americano. Saber quantos metros quadrados tem um hectare.
Na última formatura da Fabico, na qual estavam vários dos meus colegas de faculdade, quase todos tornaram-se desempregados. Conseguir estágios nos semestres mais adiantados da faculdade não é muito difícil: bem mais é conseguir um emprego. Um emprego que pague bem, então, é quase utopia. O jornalista está acostumado a conviver com salários que não chegam a quatro dígitos. Horas extras sem remuneração. Empregos sem planos de saúde, sequer vale-transporte. Abrir pessoas jurídicas para ganhar um pouco mais, mesmo renunciando a todos os direitos trabalhistas. Exigência de carro e CNH para trabalhar como repórter e também como motorista. A redação de jornal grande torna-se distante. A assessoria de imprensa é o caminho mais viável.
Nos bancos da academia, o que ouvimos? A assessoria de imprensa não é um trabalho digno para a nossa profissão. Na redação, não podemos engolir muitos sapos. Temos que mudar as pautas, fazer matérias sobre a Via Campesina, os moradores de rua, para desmentir tudo que está aí.
Poucos percebem, entretanto: as pessoas que dão este tipo de discurso tinham na sua época uma segurança muito maior para tentar mudar o mundo. Uma palavra fora do lugar lhe tirou o emprego? Tudo bem, ali adiante está outro. O editorial não está de acordo com as suas posições políticas? Ali do lado tem um jornal que fala o que tu queres e também paga bem. Nem precisa de muita experiência. Naquela época, os subversivos tinham que fugir da polícia, do DOPS, dos alcaguetes. Hoje, a repressão ostensiva não existe, mas somos diariamente reprimidos pelo fantasma do desemprego. Não está contente com a linha editorial? Tem 400 atrás da tua vaga. Convenhamos que não dá para mudar o mundo com os credores batendo na porta.
O discurso por um novo jornalismo, geralmente de esquerda, não é prejudicial ideologicamente. Acredito na maldade presente nas matérias sobre segurança pública; acredito que Chávez é demonizado injustamente; acredito no poder vil das empresas aéreas sobre a pauta de acidentes. No entanto, vendo o panorama do mercado e como o profissional é desprezado, dá para perceber que muito da responsabilidade sobre a péssima condição de trabalho do jornalista está na tentativa de resgatar valores que não voltam mais.
Quantos jornalistas saem da faculdade conhecendo o Código de Ética? Quem conhece pelo menos um artigo deste código? Quando estudamos a Lei de Imprensa, hoje amplamente debatida, nos bancos da faculdade? Quantos sabem o piso salarial da nossa profissão? Os direitos que são garantidos pela Federação, pelos Sindicatos?
Os poucos professores com consciência política esqueceram em algum canto a consciência de classe. Carregam consigo um séquito de alunos combativos, lutadores, que tencionam mudar a política universal mas não sabem nada sobre o que está mais próximo: os nossos direitos fundamentais, como jornalistas. Parece que existem dois caminhos: a submissão total ou a ruptura incondicional. No fim das contas, quem rompe com o mainstream acaba se vendendo para outros senhores. Fazendo pautas de acordo com as ONGs, as Fundações, até mesmo os fundos de pensão que lhe pagam. Onde está o bom jornalismo no qual nos fizeram acreditar?
Dom Quixote lutava contra os moinhos de vento acreditando que eram poderosos gigantes. Os novos jornalistas de hoje vão pelo mesmo caminho. Combatem em busca de um sonho. São incapazes, entretanto, de derrubar as pás dos reais e palpáveis moinhos que bloqueiam nosso caminho.
quem ainda não leu, não sabe o que está perdendo.
matéria de Renan Antunes de Oliveira, no jornal Já, vencedora do Prêmio Esso de Reportagem em 2004, sob apupos da mídia corporativa.
alguns trechos:
‘Eu não sou desse mundo’ era sua frase predileta. Felipe disse que se sentia assim para dona Lili, para Helena, seu grande amor, para Karen, sua última namorada, para Cristiano e Xande, dois tatuadores tão amigos que cada um segurou uma alça do caixão, e para Virgínia, uma amiga que foi ao enterro chorar com a família.
Não dá para saber quando foi que ele começou a se sentir desse jeito. A mãe contou que ‘cedo’ a família percebeu nele ‘alguma coisa diferente’. Por isso, ‘desde pequeno recebeu tratamento psicológico’. Nos dois últimos anos esteve ‘sob o controle de um psiquiatra’.
Os médicos diagnosticaram um mal que surge na adolescência. O ‘transtorno afetivo bipolar’, ou ‘psicose maníaco-depressiva’. Felipe vivia na gangorra entre depressão e euforia, quase sempre no lado da baixa. Era tratado com um coquetel de antidepressivos.
mais adiante:
Felipe chegou no edifício do pai e o esperou no saguão. Odacir apareceu pouco antes da seis, cambaleando. Caiu no portão. O zelador Gérson e o porteiro Tadeu tiveram que carregá-lo.
Os dois levaram Odacir para o elevador. Na curta viagem, Gérson notou que ele se contorceu de dor, provocada por um forte beliscão que Felipe lhe aplicara nas costas.
‘Eu disse para ele parar de judiar do doutor Odacir’, contou Gérson. Felipe rebateu: ‘Ele só nos faz passar vergonha’. A frase do rapaz com o rosto desfigurado soou estranha para o zelador: ‘Vinda de quem vinha, parecia piada, mas notei que ele estava muito nervoso e fiquei quieto’.
No apê, Felipe ordenou que os dois atirassem o pai no chão, mas Gérson não aceitou: ‘Mandei ele abrir a bicama da sala e o deixamos ali’.
O que aconteceu depois não teve testemunhas. Vizinhos ouviram pai e filho discutindo, gritos abafados por portas fechadas. Às 18h56, a queda.
e ainda:
Mais Helena: ‘Eu acho que é por isso que ele se matou. Ele queria ser o menos humano, mas ao mesmo tempo encarava todos os problemas. Se você encara, como é que vai sobreviver ? O suicida é aquele que não vê uma saída. E Felipe era assim’.
Sensacional. Vale cada letra.
A matéria está aqui.
A "tropa de elite" da BM de Flores da Cunha perdeu um soldado, assassinado por um pai de família apavorado com a campana que três soldados faziam na sua casa. Um deles tentou invadir a sua residência, inclusive.
A "tropa de elite" da BM atendeu o clamor de boa parte da população, sedenta por sangue: torturou três suspeitos, entre eles um adolescente de 16 anos, violentado com um cabo de vassoura, dentro de sua própria casa.
A primeira grande matéria sobre isso saiu em ZH quando a Brigada Militar, atendendo um pedido do secretário de segurança do Estado, afastou do comando do BOE todos os policiais acusados de negligência e/ou envolvimento no caso, como dá para ver nesta matéria do dia 3 de janeiro.
É necessário demonstrar a diferença entre a linha editorial de ZH e do jornal Pioneiro, dois veículos da RBS, neste caso. Enquanto ZH colocava títulos que diziam muito pouco, o Pioneiro foi bem mais ostensivo na mesma data. A matéria é a mesma, recheada de fontes da Brigada Militar.
Um fato curioso de observar é que o Jornal Pioneiro, do mesmo dia, confirma que o menor de idade foi mesmo torturado com o cabo de vassoura:
Agressão por parte de PMs
- É o inquérito mais complicado e demorado. Até ontem, quatro pessoas tinham sido ouvidas e outras três devem ser interrogadas hoje. O delegado Ives já tem em mãos a confirmação técnica de que o rapaz de 16 anos foi agredido com um cabo de vassoura introduzido no ânus. Outros laudos mostram que os outros envolvidos que denunciaram agressões pelos PMs têm escoriações leves."
No entanto, nas edições subsequentes, Zero Hora coloca todos os fatos envolvendo tortura no condicional, demonstrando uma curiosa prudência, pois os fatos ainda não foram confirmados pela corregedoria da BM:
"Além das suspeitas de tortura" (04/01)
"As suspeitas de tortura supostamente praticada por PMs contra adolescentes, na Serra" (07/01 - nos dias anteriores, sábado e domingo, nenhuma matéria apareceu)
" Em Porto Alegre, no domingo, os cinco rapazes que teriam sido agredidos por PMs" (08/01)
Ao lado dessa matéria, tem uma entrevista efusiva do coronel Mendes alegando que a BM tem sim o direito de entrar na casa de bandidos e que "parece que estamos voltando ao tempo do Bisol". Comportamento previsível, mas não vamos fugir do tema.
No dia 8 de janeiro, cinco dias depois do afastamento e 13 dias depois da ocorrência, aparece em ZH a entrevista com o adolescente que foi empalado pelos brigadianos. O repórter é Adriano Duarte, do Pioneiro. No Pioneiro, a entrevista vai para a capa, com a cartola "Vítima de tortura fala". Em ZH, a entrevista foi para o lado inferior direito da primeira página de polícia. O destaque é a entrevista do Coronel Mendes e a cartola "Bandido não tem endereço, tem esconderijo. O endereço do bandido é o presídio." Não estranharia o sobrenome "Nascimento" após o nome do coronel.
No mesmo dia, porém, acontece o fato que muda toda a cobertura. Não é uma notícia nova, nem uma atitude diferente da BM. É a coluna de Paulo Sant’Ana.
Uma coluna inteira falando sobre o crime cometido pela polícia. "Foi um dos piores crimes cometidos por agentes da autoridade policial em todos os tempos no RS", bradou o dono da última página. No mesmo dia, Lasier Martins dedicou quase todo o programa ao fato de Flores da Cunha. Inclusive, entrevistou o advogado dos PMs, Alencar Dallagnol, que disse algumas coisas surrealistas, tais como "não existem provas de tortura", "os ferimentos no ânus podem ter acontecido por outro motivo".
Desde então, nenhum fato novo ocorreu, e ZH não noticiou coisa alguma. Porém, a mudança de postura no programa Gaúcha Repórter me deixou um pouco mais animado. Pelo menos mais um veículo da RBS tratou o crime da mesma forma que todos os outros crimes, não cometidos por policiais, foram tratados.
Adendos:
- justiça seja feita: fiquei sabendo do caso através do programa de Lasier Martins, Gaúcha Repórter, no dia 3 de janeiro. Ele entrevistou a mãe dos adolescentes torturados. Senhora simples, sem muita habilidade diante do microfone, mas que descreveu o horror com muita clareza. Foram quase 40 minutos de entrevista, e depois Lasier abriu o microfone para que algum brigadiano envolvido no caso fizesse a sua defesa. Ninguém o fez. Achei ótimo que a produção do programa tenha buscado exatamente quem foi testemunha do ocorrido, e não versões truncadas da corregedoria.
- o blog Ponto de Vista também abordou esse assunto aqui, com mais recortes de jornais e mais veemência.
não citei nenhuma linha sobre o quiproquó da liberação dos reféns farquianos pelo tio Hugo, através do pagamento de resgate e depois de alguns cafés com Marulanda. Se não entendeste nada, acompanhe aqui.
bom, como era esperado, a cobertura de mídia foi fraca quando Chávez resolveu resgatar os reféns, mas ostensiva quando a operação fracassou na primeira tentativa. ZH dedicou uma reportagem especial e o Correio do Povo colocou a derrota na sua capa. Colunistas comprometidos com a destra, tais qual Merval Pereira e Cláudio Humberto, vibraram.
não dá para reclamar, porém, de campanha anti-chavista nesse caso. Quando a operação obteve sucesso e Marulanda libertou dois reféns, ZH também dedicou as páginas 4 e 5 ao caso. O Correio foi mais longe e colocou na capa uma foto do líder bolivariano (clique na imagem para ampliar).
Como o tio Hugo é mestre em criar fatos políticos, a TeleSur cobriu todo o resgate e a chegada das duas moças ao palácio de Miraflores, em Caracas. Também cobriu o discurso de Chávez, no qual ele declara que as FARC não são terroristas, muito menos o ELN.
Nem preciso dizer que a polêmica declaração teve ampla cobertura da mídia gaúcha.
O blog segue acompanhando o que falam do tio Hugo, sem esperar muita imparcialidade. A menos que a PDVSA comece a financiar alguns grupos de mídia por aí, o que não deve ser visto com surpresa - tio Hugo não tem o menor pudor em usar dinheiro público para criar fatos políticos a seu favor.
já falei aqui que não sou de recortar jornais, esse trabalho fica muito melhor nos blogs de outros analistas da comunicação. No entanto, recorro à clipagem para ilustrar uma estranha incoerência presente em duas reportagens recentes de Zero Hora
na quinta-feira (10/01), baseada na campanha contra a violência no trânsito, o maior jornal do Rio Grande apresentou o exemplo negativo do pintor Leocir Núncio, que dirigia bêbado com três crianças como suas passageiras. Núncio era reincidente no delito. Foi entrevistado, apareceu a sua foto atrás das grades, saiu na capa o seu exemplo de imprudência, etc.
Clique nas imagens para aumentar
A princípio, nenhuma novidade. O homem foi pego em flagrante, ZH não infringiu nenhuma norma legal.
Porém, no dia 18 de dezembro (23 dias antes), apareceu a seguinte reportagem:
Um brigadiano, com um 38 na cintura, fazia brincadeiras no centro da capital totalmente alcoolizado. Claro, não existe nenhuma campanha da RBS contra pessoas bêbadas que importunam a ordem pública, desde que elas não dirijam. Porém, Zero Hora resolveu ser um pouco mais ética naquela reportagem, com a seguinte frase ao final da matéria:
"ZH não identifica o militar por considerar o alcoolismo uma doença que deve ser tratada" (clique na imagem para confirmar)
Agora eu não entendi mais nada. Por que no caso do brigadiano, é uma doença, e no caso do pintor é um crime? Por que o pintor pode ser tratado como um pária da sociedade e o brigadiano não? Não sei, sinceramente, qual é a prática mais correta do jornal, entre preservar ou não a imagem dos doentes. De um lado, a necessidade do constrangimento público; do outro, mesmo que o pintor Núncio se recupere, não conseguirá apagar a sua imagem pública de irresponsável. São casos que podem gerar uma boa discussão.
Não dá para ser incoerente, porém. Se é uma doença, que seja doença para todos, não apenas para brigadianos.
Quando encaminhei esse projeto para o JC imaginei que a gente poderia levar o jornal, pelo menos no setor chargístico, a ser uma coisa como foi a Gazeta Mercantil no seu todo, um jornal dos negócios e das empresas, mas que sempre deu, com correção exemplar, até notícias e matérias que iam contra o empresariado. Imaginava charges dignas e originais, nada mais. Nunca imaginei fazermos a revolução lá dentro.
E nunca nenhum de nós tentou nada que sequer cheirasse à charge panfletária ou engajada. Buscamos temas novos que não fossem aquelas bobagens, como desenhar o congresso em forma de pizza ou ficar chovendo no molhado como aquelas charges de Renan versus boazuda pelada da PlayBoy, por exemplo. Eu todos os dias olhava o Charge on Line com os seus chavões cansados, para saber o que não deveria fazer. Se a gente ficasse, espertamente, só nesses chavões, como as charges do Diário Gaúcho, a gente se eternizava lá.
É preciso dizer que nós fomos muito pacientes com eles. Passamos todo o governo Rigotto com uma censura prévia de sequer falar do governador. Depois se repetiu com a Yeda, quando já ficou implícito que não se devia falar de governadora. Falar de juizes já não podia há 3 anos: o editor dizia que estávamos fazendo "campanha".
Acontece que topamos com duas enormes rochas: um dono de jornal que recém chegou do setor de vendas de patentes e torneiras e um editor amedrontado e incapaz de explicar minimamente ao chefão que o bom de um jornal é ter um pouco de contraditório, até para vender melhor. Nos últimos dias o editor já havia ficado em pânico com a carta de um leitor claramente desequilibrado que argumentava que "dogmas conservadores não podiam ser discutidos".
Eu já havia passado por situação exatamente igual, quando fiz uma tentativa com o Estado de São Paulo na década de 90. Para uma publicação tão monolítica e conservadora, era incompatível a mínima irreverência que se tentou fazer. Teria que repetir agora para o editor do JC a mesma coisa que eu disse para o do Estadão quando saí: humor tem que ter veneno, se não pode veneno então tem que ter pimenta, se não pode pimenta então tem que ter sal, se não pode nem sal então vira comida para doente.
Mas acho também que é preciso reforçar publicamente o discurso de que jornais são uma concessão moral (não concessão legal/governamental, como as TVs) que a sociedade dá aos empresários, com o acordo de que eles podem ganhar o seu dinheirinho, mas tem que dar em troca notícia e verdade. É um negócio, mas um negócio diferente do de vender torneiras e vasos sanitários, tem que vender a verdade, e a verdade é uma busca que se faz com o questionamento, onde se enquadra a charge, que, com a sua irreverência, nada mais faz do que questionar. (Santiago)
*Neltair Abreu escreveu este texto sobre a sua demissão do Jornal do Comércio.
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