to the chaos and back

August 15, 2008

Um desvio na curva do tempo

Filed under: gaveta de papéis

Como vocês sabem, a Morgana me ensinou a chorar. Entre o início da minha adolescência e o nascimento dela – nem se passou tanto tempo – eu não chorava com nada. Hoje, virei uma manteiga derretida. Durante toda a formatura que assisti no sábado, do momento de entrar no Salão de Atos até o táxi de volta, eu fiquei com um nó na garganta.

Não que não tenha sido divertido. Foi muito. Dançamos, comemos bem, demos risada, conversamos bastante, convivemos com tantos amigos próximos por várias horas seguidas. Com a liberdade de saber que Morgana estava bem cuidada na casa da avó – por mais que seja uma satisfação diária o convívio dela, aquele era um momento que ela não poderia entender. Além de tudo isso, a enorme felicidade de ver tantos amigos ali, togados, grau colado, curso superior completo. Desempregados? Assustados? É bastante, mas naquela hora, o de menos. Ninguém conclui um estudo de cinco anos, 160 créditos obrigatórios e 40 eletivos sem achar que aquilo foi uma baita conquista. Gosto tanto daquela gente ali que não tem como dizer que a tristeza repousada nos meus ombros, no início da manhã, foi com a vitória dos meus amigos. Impossível.

Arrepender-se das escolhas? Não é do meu feitio. Procuro sempre me meter em grandes decisões avaliando todas as conseqüências. Sou teimoso o suficiente para achar que fiz sempre o que achava certo. Escolher quando se formar não é uma questão de estar certo. É questão de oportunidade. A rotina de vida te leva a decidir pelo caminho mais viável. Nunca vou dizer que minhas lágrimas aconteceram por que eu queria me formar em 9 de agosto.

Desde pequeno, sempre tive dificuldade de conviver com mudanças pessoais. Desde um bico de mamadeira, um sapato novo, até a escola, a namorada, com quem dividir o quarto. A noite de sábado me indicou, entre outras coisas, uma grande mudança. A confirmação de um fato que não dói, mas emociona: aquela faculdade, onde entrei, nunca mais será a mesma.

Nunca meu coração se sentiu tão aquecido como nos últimos cinco anos. Um punhado de cadeiras velhas numa sala de aula quente com um professor medíocre, cenário tantas vezes encontrado, tornava-se prazeroso pelo simples convívio com as pessoas, das quais nunca imaginei que gostaria tanto. Houve festa, houve briga, houve cerveja, houve beijo, houve ciúme, houve chinelagem, música, conversa fiada e sinuca. Houve, acima de tudo, um sentido de companheirismo e união de tanta gente, tão diversa, com tantos interesses e histórias únicas. Nunca conseguimos entender por que éramos tão ligados. E veja só, mesmo com meses e anos de distância, mesmo com os egos e as aparências, ainda existe uma naturalidade, uma ingenuidade. Capaz de reunir centenas de pessoas num baile que há muito não se via, que acabou com muita gente às 5 da manhã querendo se divertir ainda mais. Que bom que ainda resta em nós aquele coração adolescente, que há cinco anos ficou fascinado por descobrir amigos de verdade, a ponto de fazer uma profissão tão confusa valer a pena. Um coração que sempre será capaz de enfrentar todas as intempéries do mercado, da vida, quando lembrar que é possível amar apenas por existir, e que nenhuma desilusão resiste à certeza de uma boa conversa numa mesa de bar no fim da aula.

A tristeza de não ser mais colega de tantos dos meus amigos, eu sei, é passageira. No domingo passeava com a Morgana no Total, dia de sol, ela descobriu como pode ser legal uma fonte que espirra água. Que coisa linda é saber que a gente tem essa propriedade: estamos o tempo todo descobrindo novidades que nos alegram, mudam nossas vidas por algum tempo, até a próxima grande descoberta. Foi abrindo o coração que descobri as pessoas da Fabico, vivendo os melhores cinco anos da minha vida. Agora, descubro uma outra novidade: os amigos são para além dos bancos escolares, dos pátios, da mesa de sinuca. São eternos até onde a gente quiser que sejam.

July 23, 2008

fuga

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são tempos duros. Duríssimos. A vida te carrega feito uma corrente, inútil nadar para o lado contrário, o negócio é aproveitar a correnteza e a paisagem que dá para ver de cima do tronco.

porém, quando tu percebe que passa a maior parte do tempo fugindo de alguma coisa, talvez seja hora de mudar tudo. Não exatamente tudo. Algumas coisas. Tem prazeres que são indesmentíveis. Há escolhas que dominam uma vida inteira. Outras, nem tanto.

percebo, aos poucos, que um tempo está acabando. Outro precisa começar. Uma boa alternativa é parar de pensar no além estando amarrado à mesma carreira. Desatar os nós, atar a corda em outra baia. Sempre tive dificuldade em tomar decisões pessoais complicadas. Essas decisões sempre partiram de uma convicção íntima muito forte.

Talvez essa convicção íntima ainda não seja suficiente.

January 3, 2008

os passos definitivos

Minha relação com os textos de David Coimbra é de amor e ódio. Gostava muito dele quando decidi escolher o jornalismo, mas me decepcionei com a mistura de futebol e futilidades durante a Copa de 98. Depois, fiquei ainda mais chateado quando descobri que ele inventava fatos para basear algumas teses – tem uma coluna sobre a Lei Pelé que é muito clara nisto. Nada contra o fato dele ser gremista, embora eu tenha uma certa resistência quanto a ele nunca admitir isso.

Preciso dizer, entretanto, que esta coluna foi uma das coisas mais geniais que eu li no periodismo da província nesta vida.

Melhor ainda foi a repercussão que o jornalista Emanuel Mattos deu no seu blog sobre o tema, sensível e contundente.

No texto, Emanuel diz que é amigo de David e que este tinha problemas em falar sobre o seu pai. Entendo perfeitamente, pois considero a coluna que ele escreveu muito dolorida. Parece que há algo engasgado, o grande escritor deixa transparecer isso nas suas linhas.

Agora que David é pai – inclusive, o Bernardo nasceu um ou dois meses depois da Morgana – ele provavelmente deitou o seu raciocínio nos motivos que levaram seu pai a abandoná-lo. Deve Ter questionado: que espécie de raciocínio absurdo faz um pai querer abandonar o seu filho? David chegou à conclusão da vergonha.

A mim também é um tema que impressiona. Abandonar, rejeitar, deixar um filho deve ser uma atitude muito terrível.

Acredito que para determinadas pessoas, a realidade é violenta demais. O alcoolismo, como qualquer vício – inclusive o vício do computador, mais recente – é uma tentativa de fuga desta realidade. O vício de sair da rotina, da vida mundana, e viver um mundo à parte. Quantos destes pais alcoolistas não decidiram abrir a primeira garrafa quando entraram numa loja e perceberam que não tinham dinheiro para comprar um presente para o filho? Quantos destes resolveram passar o dia inteiro no bar porque a dor de não achar comida em casa era insuportável? Quantos destes se sentiram pais incompetentes, omissos, desprezíveis, e por isso optaram pela válvula de escape de mais fácil acesso?

Isto também me impressiona porque vejo pessoas muito próximas, e muito variadas, entrando por este caminho. Pessoas muito bem sucedidas e pessoas que não têm onde morar. Gurizada que recém está começando tudo e gente bem mais velha, com a vida feita. A insatisfação diária, o descontentamento, é comum, os métodos de fuga também.

Não sei se vale a pena proibir, não sei se vale a pena conscientizar, não sei se o melhor não é trabalhar o tempo todo a auto-aceitação e ver as coisas sempre em perspectiva. Sei, porém, o que desejo para todo mundo neste próximo ano: que todo mundo perceba que a sua vida é ótima e seguindo neste caminho, ainda podemos fazer muito melhor. Tentando escapar da realidade podemos  tomar decisões que nunca tomaríamos – e algumas delas podem ser irreversíveis.

July 16, 2007

metáforas

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tu mora em um apartamento no qual te sente bem, a vizinhança é tranquila, cuidar dele não dá muito trabalho e ela é perfeita para as tuas necessidades atuais, no custo e no benefício.

só que tu sabe que nunca vai conseguir comprar esse apartamento. O teu contrato vence em nove meses e tu tem uma enorme chance de ficar sem ter onde morar antes da formatura.

surge uma oportunidade. Um apartamento mais caro, vai sobrar bem menos grana no fim do mês. É mais longe, a Morgana terá de ser cuidada por alguém até as 22h.

o problema é que eu adoro essa zona, tenho uma enorme satisfação só em saber que o condomínio tem as coisas que eu necessito. Além do mais, existe uma chance de comprar o AP dentro de um ano - o que não acontece no outro.

no meu lugar, o que tu faria?

ficaria em casa, procurando uma proposta melhor, ou aproveitaria essa difícil oportunidade?

March 28, 2007

notas de 28 de março, 18h27

Filed under: gaveta de papéis

Os perdidos continuam me procurando. Até senti falta deles. Hoje, vieram dois: um com crachá da prefeitura de Getúlio Vargas querendo saber como chegava na Av. Júlio de Castilhos – na Princesa Isabel – e um motoqueiro que não sabia onde ficava a São Manoel. Estou achando que tenho vocação para a coisa.

Talvez também tenha vocação para produtor. Segunda-feira minha pauta de TV caiu e tive de procurar uma outra pauta faltando 30 minutos para as 18h – horário que fecha todas as assessorias de imprensa importantes do mundo, menos a do Cremers, claro. Já conformado em buscar uma pauta na hora, sem acertar com ninguém, lembrei da história dos atrasos de salários da Yeda e da liminar impetrada pela Associação dos Delegados de Polícia. Consegui o próprio presidente, figura simpática. A Aline disse que eu consigo coisas milagrosas. Milagre seria entrevistar o governador de um dia pro outro. Mas tive orgulho do meu êxito, porém. Tanto que estou divulgando.

Mesmo que a matéria não tenha ficado lá essas coisas.

A Gol acaba de anunciar a compra da Varig. O Terra fala em 320 milhões de dólares, a Agência Estado em 275. É o terceiro negócio grande envolvendo empresas gaúchas – nem sei se a Varig ainda era gaúcha, depois da falência – nos últimos dias. A princípio, mais aviões baratos.

Inter X Vélez Sarsfield, hoje ,21h45. Amanhã poderá ter um post sobre isso. Ouço no rádio, Pato no banco é a tendência. Ele não teria coragem de fazer isso na frente da social do Inter.

Calor absurdo em Porto Alegre ontem à noite, que pode se traduzir em chuva hoje. A temperatura se manteve nos 31 graus mesmo com o pôr-do-sol, o que é uma total loucura, ainda mais para o início do outono.

O Big Brother também tem suas virtudes. Admito: assisto pelo menos quatro vezes por semana. E dou meus palpites. É certo que virou um programa sem graça há um bom tempo, depois que o Diego Alemão tornou-se o vencedor. Há dez semanas todo mundo sabe quem vai ganhar, ligar a TV à noite dá a impressão que estamos assistindo o VT de um jogo de futebol acontecido ontem. Mesmo assim, não deixa de ser interessante em alguns aspectos.

A frase “prego que se destaca leva martelada”, por exemplo. Muito útil para a aula de Psicologia Geral, onde temos uma mulher que “sofre de maneira urbana” e adora dizer que sabe tudo sobre os filósofos. Até tem algumas opiniões válidas, mas suas opiniões são tantas que as boas se escondem no meio de um lago de besteiras. Fico sabendo que a maior parte da turma detesta ela. E já percebi que alguns pedem a palavra apenas para provocá-la. É divertido.






















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