Um desvio na curva do tempo
Como vocês sabem, a Morgana me ensinou a chorar. Entre o início da minha adolescência e o nascimento dela – nem se passou tanto tempo – eu não chorava com nada. Hoje, virei uma manteiga derretida. Durante toda a formatura que assisti no sábado, do momento de entrar no Salão de Atos até o táxi de volta, eu fiquei com um nó na garganta.
Não que não tenha sido divertido. Foi muito. Dançamos, comemos bem, demos risada, conversamos bastante, convivemos com tantos amigos próximos por várias horas seguidas. Com a liberdade de saber que Morgana estava bem cuidada na casa da avó – por mais que seja uma satisfação diária o convívio dela, aquele era um momento que ela não poderia entender. Além de tudo isso, a enorme felicidade de ver tantos amigos ali, togados, grau colado, curso superior completo. Desempregados? Assustados? É bastante, mas naquela hora, o de menos. Ninguém conclui um estudo de cinco anos, 160 créditos obrigatórios e 40 eletivos sem achar que aquilo foi uma baita conquista. Gosto tanto daquela gente ali que não tem como dizer que a tristeza repousada nos meus ombros, no início da manhã, foi com a vitória dos meus amigos. Impossível.
Arrepender-se das escolhas? Não é do meu feitio. Procuro sempre me meter em grandes decisões avaliando todas as conseqüências. Sou teimoso o suficiente para achar que fiz sempre o que achava certo. Escolher quando se formar não é uma questão de estar certo. É questão de oportunidade. A rotina de vida te leva a decidir pelo caminho mais viável. Nunca vou dizer que minhas lágrimas aconteceram por que eu queria me formar em 9 de agosto.
Desde pequeno, sempre tive dificuldade de conviver com mudanças pessoais. Desde um bico de mamadeira, um sapato novo, até a escola, a namorada, com quem dividir o quarto. A noite de sábado me indicou, entre outras coisas, uma grande mudança. A confirmação de um fato que não dói, mas emociona: aquela faculdade, onde entrei, nunca mais será a mesma.
Nunca meu coração se sentiu tão aquecido como nos últimos cinco anos. Um punhado de cadeiras velhas numa sala de aula quente com um professor medíocre, cenário tantas vezes encontrado, tornava-se prazeroso pelo simples convívio com as pessoas, das quais nunca imaginei que gostaria tanto. Houve festa, houve briga, houve cerveja, houve beijo, houve ciúme, houve chinelagem, música, conversa fiada e sinuca. Houve, acima de tudo, um sentido de companheirismo e união de tanta gente, tão diversa, com tantos interesses e histórias únicas. Nunca conseguimos entender por que éramos tão ligados. E veja só, mesmo com meses e anos de distância, mesmo com os egos e as aparências, ainda existe uma naturalidade, uma ingenuidade. Capaz de reunir centenas de pessoas num baile que há muito não se via, que acabou com muita gente às 5 da manhã querendo se divertir ainda mais. Que bom que ainda resta em nós aquele coração adolescente, que há cinco anos ficou fascinado por descobrir amigos de verdade, a ponto de fazer uma profissão tão confusa valer a pena. Um coração que sempre será capaz de enfrentar todas as intempéries do mercado, da vida, quando lembrar que é possível amar apenas por existir, e que nenhuma desilusão resiste à certeza de uma boa conversa numa mesa de bar no fim da aula.
A tristeza de não ser mais colega de tantos dos meus amigos, eu sei, é passageira. No domingo passeava com a Morgana no Total, dia de sol, ela descobriu como pode ser legal uma fonte que espirra água. Que coisa linda é saber que a gente tem essa propriedade: estamos o tempo todo descobrindo novidades que nos alegram, mudam nossas vidas por algum tempo, até a próxima grande descoberta. Foi abrindo o coração que descobri as pessoas da Fabico, vivendo os melhores cinco anos da minha vida. Agora, descubro uma outra novidade: os amigos são para além dos bancos escolares, dos pátios, da mesa de sinuca. São eternos até onde a gente quiser que sejam.
