to the chaos and back

July 9, 2008

um futuro mais saudável

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Ao contrário de todo mundo, eu não acho que o futuro será muito pior para a minha filha. Acho, inclusive, que será mais saudável.

O álcool será proibido. É questão de tempo. Existem leis contra a venda em postos; existem cidades nas quais não se pode beber na rua à noite; agora, ninguém pode beber qualquer coisa antes de dirigir. Mais adiante, será proibido o consumo em público e a propaganda na televisão, como quase aconteceu agora há pouco. Os cigarros agonizam; amanhã, serão as bebidas alcoólicas.

A gordura trans será proibida. Tem um projeto sobre isso tramitando na Câmara, rejeitado em um primeiro momento, mas que logo será aprovado. Afinal, Nova York já aprovou; e o que não copiamos dos yankees, não é mesmo? O lanche da Morgana na escola não terá mais biscoitos recheados, de polvilho e outras atrocidades cardíacas. As festinhas de 12 anos nas garagens não terão mais garrafas de vinho escondidas, compradas por algum corajoso no armazém da esquina - até lá, o armazém da esquina será tão idoso quanto o mimeógrafo. Talvez a própria palavra “cigarro” fique escondida em algum canto da memória dela, como “aquilo que minha mãe e minha avó usavam”.

Não teremos álcool, nem gordura. Talvez não mais combustíveis poluentes. O petróleo já atinge níveis estratosféricos, os carros de hidrogênio e biodiesel estão sendo produzidos e os carros novos nem soltam mais fumaça. Morgana poderá respirar melhor nas ruas, pois evitaremos o uso de papel ao máximo, não só com os cartões eletrônicos e os computadores de mão, mas também com as campanhas massivas de conscientização ecológica. Morgana talvez nem goste de livros em papel branco. Ache bem mais simpáticos os tons pastéis dos papéis reciclados.

A minha dúvida é: até lá, as relações humanas serão mais saudáveis? Cada vez se consome mais gente nesse mundo. É cada vez mais fácil ter amigos conforme os interesses do momento, sejam eles quais forem. Existem comunidades de amigos, fóruns de discussão, programas de bate-papo, nos quais podemos adquirir amigos diferentes para cada tema. Talvez aquele conceito de amigos com os quais falamos sobre tudo, desde sexo até laterais esquerdos, nem seja mais utilizado quando Morgana completar 16 anos.

Sem falar no álcool. Se for proibida a cerveja, o que será das intermináveis rodas de bobagem no sábado a noite?

Vou mudar os meus conceitos de “pior” e “mais saudável”. Talvez eles sejam congruentes.

February 26, 2008

upa upa upa cavalinho sem medo

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January 3, 2008

os passos definitivos

Minha relação com os textos de David Coimbra é de amor e ódio. Gostava muito dele quando decidi escolher o jornalismo, mas me decepcionei com a mistura de futebol e futilidades durante a Copa de 98. Depois, fiquei ainda mais chateado quando descobri que ele inventava fatos para basear algumas teses – tem uma coluna sobre a Lei Pelé que é muito clara nisto. Nada contra o fato dele ser gremista, embora eu tenha uma certa resistência quanto a ele nunca admitir isso.

Preciso dizer, entretanto, que esta coluna foi uma das coisas mais geniais que eu li no periodismo da província nesta vida.

Melhor ainda foi a repercussão que o jornalista Emanuel Mattos deu no seu blog sobre o tema, sensível e contundente.

No texto, Emanuel diz que é amigo de David e que este tinha problemas em falar sobre o seu pai. Entendo perfeitamente, pois considero a coluna que ele escreveu muito dolorida. Parece que há algo engasgado, o grande escritor deixa transparecer isso nas suas linhas.

Agora que David é pai – inclusive, o Bernardo nasceu um ou dois meses depois da Morgana – ele provavelmente deitou o seu raciocínio nos motivos que levaram seu pai a abandoná-lo. Deve Ter questionado: que espécie de raciocínio absurdo faz um pai querer abandonar o seu filho? David chegou à conclusão da vergonha.

A mim também é um tema que impressiona. Abandonar, rejeitar, deixar um filho deve ser uma atitude muito terrível.

Acredito que para determinadas pessoas, a realidade é violenta demais. O alcoolismo, como qualquer vício – inclusive o vício do computador, mais recente – é uma tentativa de fuga desta realidade. O vício de sair da rotina, da vida mundana, e viver um mundo à parte. Quantos destes pais alcoolistas não decidiram abrir a primeira garrafa quando entraram numa loja e perceberam que não tinham dinheiro para comprar um presente para o filho? Quantos destes resolveram passar o dia inteiro no bar porque a dor de não achar comida em casa era insuportável? Quantos destes se sentiram pais incompetentes, omissos, desprezíveis, e por isso optaram pela válvula de escape de mais fácil acesso?

Isto também me impressiona porque vejo pessoas muito próximas, e muito variadas, entrando por este caminho. Pessoas muito bem sucedidas e pessoas que não têm onde morar. Gurizada que recém está começando tudo e gente bem mais velha, com a vida feita. A insatisfação diária, o descontentamento, é comum, os métodos de fuga também.

Não sei se vale a pena proibir, não sei se vale a pena conscientizar, não sei se o melhor não é trabalhar o tempo todo a auto-aceitação e ver as coisas sempre em perspectiva. Sei, porém, o que desejo para todo mundo neste próximo ano: que todo mundo perceba que a sua vida é ótima e seguindo neste caminho, ainda podemos fazer muito melhor. Tentando escapar da realidade podemos  tomar decisões que nunca tomaríamos – e algumas delas podem ser irreversíveis.

November 30, 2007

comendo papinha

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Coisa mais querida, hein?

July 10, 2007

ratos e famílias

semana passada fomos expulsos de casa por um rato.

ou um camundongo grande, como diria a faxineira que passou lá em casa. Tirava eu o lixo na segunda-feira passada à noite quando o meliante passou por trás de mim. Renata viu e saiu gritando. Ela tem pânico de ratos. Pânico é uma coisa bem mais séria do que vocês podem pensar, a pessoa fica completamente fora de si. Diante daquela crise, chamei a mãe dela, com o objetivo de levar Renata e Morgana para a sua casa enquanto eu resolvia o problema. Descobri que havia um buraco de fossa, daquelas fossas de tanque com um cano no meio, aberto na área de serviço. Tinha uma tampinha de plástico e dois furos, ridículo. Abri o buraco e, sem muitas idéias nem coisas para tapar, coloquei dois sacos de lixo pretos.

nesse meio tempo, liguei para a mãe. “Que que eu faço?” “Pega uma garrafa pet, bota um pedaço de queijo dentro. O rato vai entrar na garrafa. Daí tu fecha a tampa e depois bota fora”. A idéia parecia genial, até eu ver o bicho ao vivo. Ele parecia grande. Do tamanho da minha mão fechada, mais ou menos, bem preto e horrível - como são todos os ratos de esgoto. Nunca aquele bicho entraria na garrafa de Guaraná Antarctica com queijo que estava na área de serviço. Liguei de novo pra mãe. “Tu tem uma ratoeira?” Onze horas da noite era meio impossível levar uma ratoeira do Sarandi até em casa. Até por que ratos não caem así no más em ratoeiras, nem em garrafas pet.

aturdido, saí de casa. Buscava qualquer coisa que pudesse solucionar o problema. Entrei numa loja AM-PM que ficava perto de casa. Evidentemente, não achei nenhum veneno de ratos. No caminho, fui abordado por um casal de mendigos.

- ô moço, tem uma ajuda?

não tinha quase nada nos bolsos, mas não consegui evitar. O rapaz aproveitou meu momento de fragilidade e resolveu insistir.

- não sou ladrão não, moço. Não vou robar nada. Não sou desse tipo. Só quero uma ajuda mesmo, pra comer, moço. Pode ser até vale transporte.

tentei dialogar, disse que não tinha nada nos bolsos, dei duas fichinhas que estavam no bolso esquerdo, era só. O dinheiro estava em casa. Ele insistia. Sabia que poderia tirar qualquer coisa de um pai temporão apavorado com roedores.

- tu tem pelo menos mais umas quatro fichinhas?

não ia conseguir me livrar mesmo. Até pensei em chamar os dois para caçar o rato em troca de comida.

- tá, eu tenho mais quatro fichas. Me espera aqui. Se quiser, pode me esperar na frente de casa.
- isso aí, agora senti firmeza em ti.

fui em casa, busquei as fichinhas. Dei duas para ele e duas para a moça.

- pô, valeu irmão, pode crer. Sabia que tu era de fé. Valeu mesmo!

voltei à peleja. O que diabos fazer? Olhei as armas que estavam diante de mim - a coisa mais pesada que eu poderia manejar, além dos talheres, era uma vassoura. Mesmo o martelo que tinha era pequeno demais para ferir um vertebrado. Uma vassoura jamais faria mal àquele bicho. Desisti. Liguei para a Mara Lane dizendo que passaria a noite lá junto com as quatro.

Não quis chamar táxi, fui caçar um na rua. Em direção à Visconde do Rio Branco, pela Cristóvão, vi dois homens parados na esquina, um deles vindo à mim. Era só o que faltava ser assaltado. Comecei a voltar e abordei um Voyage. O táxi parou. “Garibaldi, por favor, depois da Independência”. Vamos nessa.

No caminho, fui conversando com o taxista sobre o rato. De repente ele poderia me ajudar a encontrar alguma solução. “Bah, o único lugar onde tu pode achar um veneno é no Nacional 24 horas”. Hum. Fiquei pensando no assunto. “Tá pensando no super, né? Vamos lá.”

“Vamos”, aceitei a proposta.

No caminho, ele foi conversando comigo. Sobre os cinco celulares dele - andava com dois, um Nokia e um Motorola V3. Sobre a maravilha que eles eram, dava para baixar vídeos e até ver jogos de futebol na tela do V3. Me mostrou um vídeo onde uma mulher se esgoelava gritando contra um caminhoneiro grudado na traseira do seu carro. Uma mulher liga para ele. Está na sala de espera do motel, aguardando a sua chegada. “Já vou, meu bem”. Chegamos no Nacional.

- É isso aí então, valeu.
- Que nada, vou lá contigo. Nem que seja pra comprar uma coca litrão. Vamo matar esse bicho.

Entramos os dois no Nacional 24horas à procura de veneno de rato. Não tinha, claro: veneno assim só se vende em ferragem, pelo alto grau de periculosidade. Mata Baratas? Não vai fazer nem cócegas. Jimo gás? Tá louco, nunca mais volto pra casa. É, não vai dar. Ele liga para a ex-mulher dele, que mora ali perto, para ver se ela tem uma solução. Eu ligo para o Ressel, que nem está em casa. Nada. Vamos voltar.

nota importante: Kalil, dindo da Morgana, ficou extremamente magoado com o fato de até a ex-mulher do taxista saber do caso e ele não - sendo que Kalil é nosso vizinho. Acho que ele ainda não me perdoou, mas eu tento me justificar. Não queria chamar ninguém, como é meu costume, queria resolver o problema sozinho.

Fui para a casa da Mara Lane, onde Renata parecia bem mais calma por estar num lugar seguro. Bebi um pouco e fui dormir. Meio frustrado por não conseguir resolver o problema.

Na manhã seguinte, Mara Lane havia pesquisado muito sobre ratos, chegando à conclusão que ratoeiras adesivas e repelentes ultrasônicos eram o ideal. Fomos atrás. Em ferragens, nem sabiam o que era um repelente ultrasônico. Só tinham ri-do-rato, ratoeiras de metal e olhe lá. “Mas onde eu acho uma coisa assim, mais sofisticada” “Em lojas de agropecuária”. Me mandei pro Centro, entrei na Zimmer e naquela outra que fica na praça Rui Barbosa. Comprei um repelente para “pombos, formigas, ratos, morcegos e pássaros em geral”, vários venenos, entre eles um que “atrai” as pestes pelo cheiro, feito com cereais intoxicados. Comprei também duas ratoeiras adesivas. Vamos à luta.

Instalei as armadilhas todas, abri o buraco (que havia tampado com um baú) e fui trabalhar.

À noite, tive a impressão que o filhote de belzebu havia mexido no veneno. Não pude confirmar. Fui jantar uma comida muy buena na casa da Lane, massa ao pesto e frango a passarinho. Flor de especial.

Na manhã seguinte, comprei mais duas ratoeiras adesivas. O circo estava montado na cozinha de casa. No mesmo dia, Renata me manda um email sobre os coisa-ruim. Descrevo dois trechos:

“O paladar é capaz de detectar porções extremamente pequenas de um composto em meio aos alimentos, fazendo com que eles evitem série de produtos que são usados como raticidas. Comparado ao homem é como se pudéssemos perceber o sabor de uma colherada de sal que foi dissolvida em uma piscina cheia de água.”

“Os ratos podem penetrar em qualquer abertura, para isto basta que consigam passar a cabeça, são exímios escaladores e se equilibram com extrema facilidade em superfícies muito pequenas e finas, como por exemplo um fio elétrico. Podem nadar distâncias de até 800 m, na superfície ou submersos, podendo nadar em um cano de esgoto e entrar em uma residência através de um vaso sanitário, fato comum de ocorrer.”

nada animador.

voltei para a casa e naquela noite - quarta para quinta - fiquei acordado até as 4 da manhã esperando o mefisto passar pela cozinha. Nada. Nem sombra dele. Segundo os especialistas, esses seres infelizes só aparecem à noite. Cheguei à conclusão que o maldito não estava mais em casa.

“Tá, então vamos chamar uma faxineira para limpar tudo, só para ter certeza” - diz a Renata.

Meu chefe, Ilgo, me recomendou uma moça que trabalha com ele. Liguei para ela e combinamos: sexta, 8h. Beleza.

Tinham umas roupas na máquina, desde segunda, que a Renata me pediu para lavar novamente. Liguei a máquina, deixei a faxineira- Eneida -trabalhando e fui comprar um tampão de metal para o buraco.

Ao voltar:
- “Nem sabe o que aconteceu. A máquina tava entupida e vazou água por tudo!”
Olhei o registro. Tudo ok. Nada parecia alterado. Os canos, nada. O problema estava justamente na fossa de tanque que estava aberta.

Comecei a retirar os sacos plásticos. Vi um rabo. RÁ! Estava ali o filho da puta. Morto.

Antes de tirar o cadáver, liguei para as duas dizendo que tinha achado o corpo do bandido. Enquanto isso a faxineira, com muito mais senso prático, pegava luvas descartáveis e exumava o filho do Cão. Tampado o rombo com metal, essa batalha teve um final feliz.

É claro que, se uma rolha inesperada cai no chão da cozinha, nós dois gritamos e saímos correndo. Continuamos paranóicos, mas faz parte.

July 3, 2007

a vida faz sentido

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Morgana é a coisa mais linda.

Morgana é uma criança bem pequenininha que puxou muita coisa do pai. A pele meio morena, o nariz chato, a boca, a cara de braba, a testa franzida o tempo todo. Apesar da cara de má, tem uma personalidade bem tranquila.

Tem o olhar da mãe, assim como as sobrancelhas e as bochechas. Também é carinhosa como a mãe. Gosta de gente por perto, bastante movimento e barulho, como uma típica geminiana. Morgana é do dia 25 de maio. Quando escrevo esse post, ela tem um mês e oito dias.

Morgana tem como sobrenomes Zardin Flores e dos Santos, os dois da mãe e o último do pai. Tem duas avós muito queridas que amam ela demais e sempre acham que ela está com frio. Mara Lane temeu escrever só clichês sobre a chegada da sua primeira neta. Não é possível escrever qualquer coisa sobre Morgana que não seja um clichê. Também não é possível pensar nada que não sejam clichês sobre ela. Se vocês duvidam, olhem a carinha dela ou deixem ela se encostar no seu peito. É impossível ser criativo numa hora dessas. O amor é muito caro a todas as pessoas, é muito intrínseco, todo mundo sabe onde ele está - não é preciso inventá-lo.

Pouco sei ou desejo sobre o futuro de Morgana. Minha mãe sempre disse que criamos filhos para o mundo, não para nós. Sei até onde posso contribuir e quero fazer o possível para fazer dela uma boa pessoa. Acho que aqui reside uma grande característica minha - eu sei que troco as fraldas, faço ninar, ela depende de mim e da mãe dela para tudo, mas bebês são pessoas. Muita gente não considera seus filhos como pessoas, por que lembram da sua fragilidade infantil e conservam essa proteção para todo o sempre. Não sei se vou ser assim. Assim como eu vou ajudar Morgana a evoluir, ela já está me ajudando a ser uma pessoa melhor desde agora.

Talvez um dia Morgana leia esse texto e pense quão bobo era seu pai logo depois dela nascer. Talvez Morgana nunca me respeite mais após me ver pintado no chá de fraldas. Talvez Morgana não me queira bem por todos os motivos que nunca vou saber, e talvez ela não goste de mim por motivos que eu sei muito bem.

Mas gostaria muito que Morgana soubesse do imenso amor que seu pai e sua mãe sentem por ela nesse princípio e o quanto ela é importante para nós, e como será importante durante toda a sua vida.

Morgana é a coisa mais linda. É o principal motivo pelo qual a minha vida faz sentido.

April 5, 2007

chá de fraldas

Filed under: morgana

O chá de fraldas da Morgana será no dia 16 de abril, à noite, no Parangolé.

Nós três ficaremos muito agradecidos se vocês levarem especialmente fraldas e lenços umedecidos. Fricotes afins também são bem vindos. Se tudo der certo, teremos boas tortas.






















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