semana passada fomos expulsos de casa por um rato.
ou um camundongo grande, como diria a faxineira que passou lá em casa. Tirava eu o lixo na segunda-feira passada à noite quando o meliante passou por trás de mim. Renata viu e saiu gritando. Ela tem pânico de ratos. Pânico é uma coisa bem mais séria do que vocês podem pensar, a pessoa fica completamente fora de si. Diante daquela crise, chamei a mãe dela, com o objetivo de levar Renata e Morgana para a sua casa enquanto eu resolvia o problema. Descobri que havia um buraco de fossa, daquelas fossas de tanque com um cano no meio, aberto na área de serviço. Tinha uma tampinha de plástico e dois furos, ridículo. Abri o buraco e, sem muitas idéias nem coisas para tapar, coloquei dois sacos de lixo pretos.
nesse meio tempo, liguei para a mãe. “Que que eu faço?” “Pega uma garrafa pet, bota um pedaço de queijo dentro. O rato vai entrar na garrafa. Daí tu fecha a tampa e depois bota fora”. A idéia parecia genial, até eu ver o bicho ao vivo. Ele parecia grande. Do tamanho da minha mão fechada, mais ou menos, bem preto e horrível - como são todos os ratos de esgoto. Nunca aquele bicho entraria na garrafa de Guaraná Antarctica com queijo que estava na área de serviço. Liguei de novo pra mãe. “Tu tem uma ratoeira?” Onze horas da noite era meio impossível levar uma ratoeira do Sarandi até em casa. Até por que ratos não caem así no más em ratoeiras, nem em garrafas pet.
aturdido, saí de casa. Buscava qualquer coisa que pudesse solucionar o problema. Entrei numa loja AM-PM que ficava perto de casa. Evidentemente, não achei nenhum veneno de ratos. No caminho, fui abordado por um casal de mendigos.
- ô moço, tem uma ajuda?
não tinha quase nada nos bolsos, mas não consegui evitar. O rapaz aproveitou meu momento de fragilidade e resolveu insistir.
- não sou ladrão não, moço. Não vou robar nada. Não sou desse tipo. Só quero uma ajuda mesmo, pra comer, moço. Pode ser até vale transporte.
tentei dialogar, disse que não tinha nada nos bolsos, dei duas fichinhas que estavam no bolso esquerdo, era só. O dinheiro estava em casa. Ele insistia. Sabia que poderia tirar qualquer coisa de um pai temporão apavorado com roedores.
- tu tem pelo menos mais umas quatro fichinhas?
não ia conseguir me livrar mesmo. Até pensei em chamar os dois para caçar o rato em troca de comida.
- tá, eu tenho mais quatro fichas. Me espera aqui. Se quiser, pode me esperar na frente de casa.
- isso aí, agora senti firmeza em ti.
fui em casa, busquei as fichinhas. Dei duas para ele e duas para a moça.
- pô, valeu irmão, pode crer. Sabia que tu era de fé. Valeu mesmo!
voltei à peleja. O que diabos fazer? Olhei as armas que estavam diante de mim - a coisa mais pesada que eu poderia manejar, além dos talheres, era uma vassoura. Mesmo o martelo que tinha era pequeno demais para ferir um vertebrado. Uma vassoura jamais faria mal àquele bicho. Desisti. Liguei para a Mara Lane dizendo que passaria a noite lá junto com as quatro.
Não quis chamar táxi, fui caçar um na rua. Em direção à Visconde do Rio Branco, pela Cristóvão, vi dois homens parados na esquina, um deles vindo à mim. Era só o que faltava ser assaltado. Comecei a voltar e abordei um Voyage. O táxi parou. “Garibaldi, por favor, depois da Independência”. Vamos nessa.
No caminho, fui conversando com o taxista sobre o rato. De repente ele poderia me ajudar a encontrar alguma solução. “Bah, o único lugar onde tu pode achar um veneno é no Nacional 24 horas”. Hum. Fiquei pensando no assunto. “Tá pensando no super, né? Vamos lá.”
“Vamos”, aceitei a proposta.
No caminho, ele foi conversando comigo. Sobre os cinco celulares dele - andava com dois, um Nokia e um Motorola V3. Sobre a maravilha que eles eram, dava para baixar vídeos e até ver jogos de futebol na tela do V3. Me mostrou um vídeo onde uma mulher se esgoelava gritando contra um caminhoneiro grudado na traseira do seu carro. Uma mulher liga para ele. Está na sala de espera do motel, aguardando a sua chegada. “Já vou, meu bem”. Chegamos no Nacional.
- É isso aí então, valeu.
- Que nada, vou lá contigo. Nem que seja pra comprar uma coca litrão. Vamo matar esse bicho.
Entramos os dois no Nacional 24horas à procura de veneno de rato. Não tinha, claro: veneno assim só se vende em ferragem, pelo alto grau de periculosidade. Mata Baratas? Não vai fazer nem cócegas. Jimo gás? Tá louco, nunca mais volto pra casa. É, não vai dar. Ele liga para a ex-mulher dele, que mora ali perto, para ver se ela tem uma solução. Eu ligo para o Ressel, que nem está em casa. Nada. Vamos voltar.
nota importante: Kalil, dindo da Morgana, ficou extremamente magoado com o fato de até a ex-mulher do taxista saber do caso e ele não - sendo que Kalil é nosso vizinho. Acho que ele ainda não me perdoou, mas eu tento me justificar. Não queria chamar ninguém, como é meu costume, queria resolver o problema sozinho.
Fui para a casa da Mara Lane, onde Renata parecia bem mais calma por estar num lugar seguro. Bebi um pouco e fui dormir. Meio frustrado por não conseguir resolver o problema.
Na manhã seguinte, Mara Lane havia pesquisado muito sobre ratos, chegando à conclusão que ratoeiras adesivas e repelentes ultrasônicos eram o ideal. Fomos atrás. Em ferragens, nem sabiam o que era um repelente ultrasônico. Só tinham ri-do-rato, ratoeiras de metal e olhe lá. “Mas onde eu acho uma coisa assim, mais sofisticada” “Em lojas de agropecuária”. Me mandei pro Centro, entrei na Zimmer e naquela outra que fica na praça Rui Barbosa. Comprei um repelente para “pombos, formigas, ratos, morcegos e pássaros em geral”, vários venenos, entre eles um que “atrai” as pestes pelo cheiro, feito com cereais intoxicados. Comprei também duas ratoeiras adesivas. Vamos à luta.
Instalei as armadilhas todas, abri o buraco (que havia tampado com um baú) e fui trabalhar.
À noite, tive a impressão que o filhote de belzebu havia mexido no veneno. Não pude confirmar. Fui jantar uma comida muy buena na casa da Lane, massa ao pesto e frango a passarinho. Flor de especial.
Na manhã seguinte, comprei mais duas ratoeiras adesivas. O circo estava montado na cozinha de casa. No mesmo dia, Renata me manda um email sobre os coisa-ruim. Descrevo dois trechos:
“O paladar é capaz de detectar porções extremamente pequenas de um composto em meio aos alimentos, fazendo com que eles evitem série de produtos que são usados como raticidas. Comparado ao homem é como se pudéssemos perceber o sabor de uma colherada de sal que foi dissolvida em uma piscina cheia de água.”
“Os ratos podem penetrar em qualquer abertura, para isto basta que consigam passar a cabeça, são exímios escaladores e se equilibram com extrema facilidade em superfícies muito pequenas e finas, como por exemplo um fio elétrico. Podem nadar distâncias de até 800 m, na superfície ou submersos, podendo nadar em um cano de esgoto e entrar em uma residência através de um vaso sanitário, fato comum de ocorrer.”
nada animador.
voltei para a casa e naquela noite - quarta para quinta - fiquei acordado até as 4 da manhã esperando o mefisto passar pela cozinha. Nada. Nem sombra dele. Segundo os especialistas, esses seres infelizes só aparecem à noite. Cheguei à conclusão que o maldito não estava mais em casa.
“Tá, então vamos chamar uma faxineira para limpar tudo, só para ter certeza” - diz a Renata.
Meu chefe, Ilgo, me recomendou uma moça que trabalha com ele. Liguei para ela e combinamos: sexta, 8h. Beleza.
Tinham umas roupas na máquina, desde segunda, que a Renata me pediu para lavar novamente. Liguei a máquina, deixei a faxineira- Eneida -trabalhando e fui comprar um tampão de metal para o buraco.
Ao voltar:
- “Nem sabe o que aconteceu. A máquina tava entupida e vazou água por tudo!”
Olhei o registro. Tudo ok. Nada parecia alterado. Os canos, nada. O problema estava justamente na fossa de tanque que estava aberta.
Comecei a retirar os sacos plásticos. Vi um rabo. RÁ! Estava ali o filho da puta. Morto.
Antes de tirar o cadáver, liguei para as duas dizendo que tinha achado o corpo do bandido. Enquanto isso a faxineira, com muito mais senso prático, pegava luvas descartáveis e exumava o filho do Cão. Tampado o rombo com metal, essa batalha teve um final feliz.
É claro que, se uma rolha inesperada cai no chão da cozinha, nós dois gritamos e saímos correndo. Continuamos paranóicos, mas faz parte.